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domingo, 22 de julho de 2012

Ideia quase maravilhosa

Conforme projeto de lei apresentado na Câmara Alta, senador paraibano do PSDB pretende acabar a reeleição ilimitada de dirigentes de federações e confederações esportivas, restringir em dois mandatos a duração máxima no mesmo cargo e extinguir o nepotismo nestas entidades. A sua proposta visa disciplinar entidades como a Confederação Brasileira de Futebol, o Comitê Olímpico Brasileiro e as federações estaduais de futebol, tendo como principal objetivo exterminar as “verdadeiras dinastias” em que se transformaram as entidades esportivas no Brasil, onde mandatários se perpetuam durante décadas no poder ou por toda existência da instituição. Um dos objetivos do projeto é a implantação de regras eleitorais para entidades esportivas com semelhanças às aplicadas aos de cargos eletivos da estrutura política do país. Com isso, seriam extintos inaceitáveis privilégios e prestígios, com o impedimento de se candidatarem na eleição subsequente os cônjuges e parentes consanguíneos ou afins, até o segundo grau ou por adoção, do dirigente eleito para o mandato com exercício imediatamente anterior às eleições. Indiscutivelmente, essa ideia é maravilhosa, porque tem a finalidade da necessária alternância nos cargos representativos, respaldada pelo salutar princípio democrático da renovação das lideranças nos comandos de instituições representativas. Agora, o ilustre parlamentar se acovardou em omitir na sua louvável iniciativa a inclusão dos cargos de representatividade pública, em todos os níveis, desde presidente da República até vereador, nos quais tem toda pertinência também a aplicação da regra de moralização generalizada pretendida no seu projeto. Não se justifica que as pessoas se perpetuem nos cargos públicos como verdadeiros donatários deles, não permitindo, como fazem os questionáveis mandatários das federações e confederações, a indispensável alternância nos cargos públicos também de senadores, deputados, vereadores, e até mesmo de presidente da República, governador e prefeito, que deveriam ser ocupados uma única vez em toda vida pública, evidentemente sem direito a reeleição, em todos os níveis. Quando se tem a iniciativa de medida com a intenção moralizadora, é importante se pensar de forma abrangente e uniforme, para que a ideia não se torne casuística e destinada à solução de questão paroquiana, sob pena de pertinentes censuras. A proposta em comento poderia ser digna de encômios se ela tratasse com responsabilidade matéria de relevante importância para a sociedade e não tivesse a indecência da parcialidade e da visível prova de corporativismo, em proteção do próprio cargo do autor. Essa iniciativa bem demonstra a triste realidade dos políticos brasileiros, que não têm o mínimo escrúpulo quando tratam de assunto que pode envolver seus interesses, preferindo preservá-los de forma vergonhosa. A sociedade lamenta profundamente proposta parcial e restritiva dessa espécie, por ser injusta e inadmissível, ante os inarredáveis princípios isonômicos e democráticos. Acorda, Brasil! 

   
ANTONIO ADALMIR FERNANDES

Brasília, em 22 de julho de 2012

domingo, 17 de junho de 2012

A barbárie da inverdade

Parece não existir a menor possibilidade de alguém poder desacreditar que não são verdadeiros os fatos estarrecedores relatados pela imprensa sobre os momentos de tortura pelos quais a presidente da República foi submetida, durante o regime militar. A mídia tem sido extremosa ao relatá-los em minúcia, marcando com detalhes o sofrimento causado a ela e as práticas horripilantes empregadas pelos brutamontes da repressão, que demonstravam todo poder de crueldade própria da ocasião, na concepção do regime, tendo por finalidade a obtenção de elementos capazes de levar aos terroristas, os quais, por certo, de forma igualmente cruel, praticavam barbaridade e desassossego contra o regime vigente e que, direta ou indiretamente, também atingiu a sociedade inocente e indefesa diante das atitudes irracionais de um bando de idealistas que objetivava a implantação do regime comunista no Brasil. Há de se lamentar a maneira incorreta e imparcial como a imprensa trata esse triste episódio da história do país, por ressaltar, passo a passo e de forma minuciosa, o tratamento violento dispensado à mandatária brasileira, dando apenas a entender que ela foi barbaramente castigada, injustiçada e obrigada às piores torturas como se estivesse totalmente inocente e imune aos atos terroristas dos quais tem orgulho de dizer, em claro e bom português, que participara ativamente, conforme demonstram os fatos confirmados por seus amigos de luta armada. Não deixa de ser injusto, para a história do país, que os delitos praticados pela presidente sejam simplesmente omitidos da opinião pública, neste momento tão importante para possibilitar o resgate da verdade histórica. A forma como os fatos estão sendo narrados, com a revelação tão somente da parte de quem se julga prejudicada, como se se tratasse de pessoa coitadinha, despreparada, inocente e indefesa, que não teria cometido crime algum nem participado de nada ilegal, certamente conduzirá a um movimento de legítima beatificação e posterior santificação, como medida de reparação da “injustiça”. Seria mais justo que a história fosse contada com a desejável transparência do que de fato houve, relatando também de maneira esmiuçada a participação dos grupos organizados, que lutaram contra a ditadura, inclusive apontando o que cada um de seus membros fez e, se possível, os benefícios e os malefícios resultantes para o progresso da nação, com vistas a possibilitar melhor avaliação sobre o que realmente ocorreu à época, não deixando quaisquer dúvidas quanto à culpa ou não de quem se considera, hoje, marte do regime, quando a sua participação na luta armada e reacionária era consciente, não podendo ignorar as consequências de seus atos, inclusive da possibilidade de responder a processo militar aos costumes, cujos procedimentos seriam aplicados de igual modo pelos terroristas, porque o peso da justiça de ambos os lados não era amenizado quanto aos métodos de violência e de brutalidade. A sociedade, lamentando a crueldade dos acontecimentos do regime militar, anseia por que prevaleça a racionalidade sobre o ser humano, sejam contados os fatos históricos tal como eles aconteceram, nunca mais ninguém participe, no Brasil, de movimentos terroristas e os ativistas do passado tenham a dignidade de revelar também seus atos delituosos contra a sociedade e os interesses nacionais. Acorda, Brasil!

ANTONIO ADALMIR FERNANDES

Brasília, em 17 de junho de 2012