segunda-feira, 25 de maio de 2020

A dignificação pelo exemplo


Apoiadores do presidente da República, acompanhando péssimos hábitos, hostilizaram jornalistas nesta segunda-feira, em frente ao Palácio da Alvorada, conforme relato da mídia.
Momentos antes dessas lamentáveis agressões verbais, o próprio presidente, ao passar perto dos repórteres, criticou a imprensa, dizendo que, "No dia que vocês tiverem compromisso com a verdade, eu falo com vocês de novo", cuja fala teve o apoio de alguns simpatizantes dele, que o acompanharam, dizendo: "Isso aí".
Na realidade, os xingamentos a jornalistas que esperam a saída do presidente, na porta do Palácio da Alvorada, diariamente, já se tornaram comuns, mas, desta vez, a agressividade foi maior, segundo noticia a imprensa, conforme a seguir.
Uma cidadã se dirigiu aos jornalistas, aos berros, dizendo: "Ó o lixo, ó o lixo, ó o lixo". "Escória! Lixos! Ratos! Ratazanas! Bolsonaro até 2050! Imprensa podre! Comunistas", enquanto outras pessoas gritavam: "mídia lixo. Sem vergonha. Vocês não mostram a realidade!", "Eu não sei como vocês conseguem dormir à noite. Vocês não representam a população brasileira! Mídia comunista, comprada! Cambada de safados!".
Outra mulher, aos gritos, bradava: “A Globo é um lixo", enquanto um homem, acompanhante dela, chamava de lixo os jornalistas em geral, nestes termos: "Vocês da mídia não representam o Brasil, não representam a nossa bandeira. A nossa bandeira tem a ordem e o progresso, cambada de comunistas".
Já uma senhora, vestida de camisa verde e amarela, onde se lia "fechados com Bolsonaro" se aproximou dos jornalistas gritando palavras agressivas à imprensa.
Diante da sala de imprensa, um homem disse que ele "teria vergonha de ser parente" dos profissionais de imprensa.
Há registro de que, no estacionamento, um grupo sensibilizado, civilizado e contrário às agressões, se aproximou dos repórteres para pedir desculpas e dizer que não concordava com o comportamento dos outros apoiadores do presidente.
Esse clima de hostilidade gratuita contra a imprensa é muito ruim e inaceitável, porque só contribui para acirrar os ânimos e certamente não vai chegar a lugar nenhum, senão piorar ainda mais a insatisfação do povo contra a imprensa, que até pode ter seus defeitos, mas o papel do profissional, qualquer que seja ele, é cumprir a sua missão institucional, porque ele é pago para isso. e é o que deve acontecer com os funcionários dos meios de comunicação, que exercem importantíssima função de levar as notícias para a sociedade.
Há até quem diga que a imprensa, diante da sua suprema importância para a sociedade, é o quarto poder, justamente porque ela é a autoridade que acompanha fatos noticiosos, nos bastidores, a todo momento, investiga, apura, vasculha notícia a fundo, tudo para manter o povo informado e esclarecido sobre os fatos da vida.
Agora, se há alguma empresa de comunicação que, por motivos ligados aos seus interesses, que não vão ao caso da imprensa em geral, isso não pode servir de argumento para a generalização, a ponto de condenação indiscriminada, porque isso é  indevido e injusto, considerando que muitos profissionais das comunicações se esforçam para ser fiel no cumprimento do dever de informar com o devido zelo, prestando as informações noticiosas exatamente nos termos como elas aconteceram, em estrita harmonia com os fatos acontecidos.
O que não pode é a população seguidora do presidente tomar as dores dele e até seguir seu péssimo e inadmissível hábito de, vez por outra, agredir verbalmente profissionais da imprensa, com palavras deseducadas, até mesmo  em revides completamente desrespeitosos e absolutamente em desarmonia com a liturgia do relevante cargo de mandatário da nação, que tem rigorosa obrigação de ser modelo de educação, ponderação, respeito, compreensão, sensatez, sensibilidade e, sobretudo, civilidade, como forma pedagógica de mostrar o melhor caminho de dignificação do ser humano.
Certamente que, nos países civilizados e evoluídos, em termos de amadurecimento político e democrático, os governantes não ficam, a todo instante, engrossando as falas na comunicação com a imprensa, porque eles sabem que qualquer forma de desrespeito e agressão à autoridade pública, o agressor será obrigado a responder por seus atos na via adequada e nos termos da lei,
Nos países sérios, os princípios e as condutas modernas hauridos pelo homem são aconselháveis indistintamente para as pessoas, que precisam  usar a inteligência para se conscientizarem de que, ao contrário daquilo, seus conhecimentos de cidadania são necessários para ajudar na crescente evolução da civilidade e da compreensão entre os cidadãos, que é forma evidente do desenvolvimento da sociedade, que ganha excelente oportunidade para compreender o real sentido dos avanços da ciência e da tecnologia, que têm por propósito exatamente a aproximação das pessoas, também em forma de tolerância, respeito e amor.
Nos países minimamente evoluídos, o mandatário mantém recíproca relação de respeito e cordialidade, em perfeita harmonia protocolar onde todos reconhecem a importância de seus trabalhos, em clima de amizade e cooperação e camaradagem.
O bom senso e a racionalidade recomendam que o homem público não se engrandece, exatamente por não ser de bom tom, pelo fato de ele criticar o trabalho da imprensa, sabendo-se que alguma informação discrepante do noticiado ou desfocada da realidade, pode ser corrigida pelos canais próprios da comunicação, mas, se assim não for possível, o caminho normal é o judicial, onde as querelas procuram ser dirimidas e solucionadas, mas jamais por meio de críticas, como foram erroneamente eleitas por governantes tupiniquins, em evidente demonstração de mediocridade.   
Há o consenso no sentido de que é aconselhável que o presidente da República precise, com urgência, se acomodar, obsequiosamente, no aconchego das gigantescas e espinhosas missões para quais ele foi eleito, de exercer com competência e eficiência as tarefas próprias do cargo, em harmonia com os ditames constitucionais e legais, cuidando, das ingentes questões referentes às políticas nacionais, em especial, à  pandemia do coronavírus e à economia.
Como sendo o principal homem público brasileiro, também conviria que o presidente da República se conscientizasse de que a sua postura de estadista tem importância estratégica para a harmonização e a consolidação do sentimento da sociedade, com vistas ao entendimento da pacificação, da compreensão, da tolerância, do respeito e principalmente do amor à pátria, procurando, no caso especial enfocado, a valorização dos meios de comunicação de reconhecido trabalho decente e correto, sem embargo de responsabilização, na via adequada, daqueles que se desviarem e denegrirem a imagem da dignidade e do ofício de bem informar com qualidade e zelo.       
Brasília, em 25 de maio de 2020

domingo, 24 de maio de 2020

Em defesa do Banco do Brasil


Na mais comentada reunião da história republicana, houve momento extremamente delicado, quando o ministro da Economia defendeu, aos palavrões, demonstrando irritação fora da curva, a privatização logo do Banco do Brasil.
O ministro disse que, embora o banco seja comandado por um liberal, o governo “não consegue fazer nada lá. Tem que vender essa p... logo”.  
O famoso economista entende que o Banco do Brasil “não é tatu nem cobra, porque ele não é privado, nem público. Se for apertar o Rubem (presidente do BB), coitado. Ele é super liberal, mas se apertar ele e falar: ‘Bota o juro baixo’, ele: ‘Não posso, senão a turma, os privados, meus minoritários, me apertam’. Aí se falar assim: “bota o juro alto”, ele: ‘não posso, porque senão o governo me aperta’. O Banco do Brasil é um caso pronto de privatização”.
No ano passado, o ministro fez ataque às atividades dos bancos públicos, ao afirmar que “a função de um banco público era passar seu excesso de receita para taxas de juros menores e não dar lucro como uma instituição privada. “Se é pra dar lucro, privatiza logo. Pra que eu vou ter um banco com 21 mil agências no Brasil todo para dar lucro máximo? Se for pra isso, privatiza, vende, funde com o Banco do Brasil”, em referência à Caixa Econômica Federal.
Todos sabemos que o Banco do Brasil é instituição respeitadíssima brasileira e mundial, que tem a participação do seu capital composto com 50% do governo federal, ou seja, dos brasileiros e o restante de acionistas que acreditam na sua performance operacional.
A sua missão institucional, segundo sua filosofia corporativa, é "Ser um banco de mercado, competitivo e rentável, atuando com espírito público em cada uma de suas ações junto à sociedade". 
O Banco do Brasil foi a primeira instituição criada no país, cuja fundação data de 1808, tendo sido também o primeiro banco da história de Portugal e do Império português.
Em 1829, o Banco do Brasil faliu depois que a Família Real confiscou os fundos e voltou para Portugal, vindo a ser refundado, em 1951, por obra e graça do nacionalista Barão de Mauá, tendo por objetivo exercer atividades bancárias, quando começou a formação do que é considerado importante patrimônio nacional, no momento.
De acordo com o Banco do Brasil, a empresa possui mais de 15 mil pontos de atendimento distribuídos pelo país afora, contando com agências e postos, com mais de 40 mil terminais, que funcionam permanentemente, além de estar presente em mais de 20 países fora do Brasil.
Ressalte-se, como fato maravilhoso, que o Banco do Brasil possui mais de 5.500 agências distribuídas em todo território nacional, estando presente na maioria dos municípios brasileiros, com a estrutura operacional de mais de 110 mil funcionários e mais de 4 mil estagiários, que são contratados temporariamente, ente adolescentes trabalhadores, normalmente estudantes carentes.
É preciso que se diga que esse sentimento pessoal do ministro da economia foge rudimentarmente do princípio clássico de privatização, que tem prioritariamente como fundamento o descarte de entidades e instituições que sejam consideradas, por critérios técnicos, desnecessárias, antieconômicas, deficitárias, improdutivas, que só dão prejuízos aos cofres públicos e oneram pesada e substancialmente os contribuintes.
Há sim urgência na privatização das instituições públicas que são sinônimos de ineficiência e antieconomicidade, que normalmente são criadas para servir de cabide de emprego, como costumam fazer os governos populistas e socialistas, a exemplo dos últimos que passaram pela Presidência da República, a partir do início deste século, quando a administração contava com somente 39 empresas públicas, mas, em pouco mais de quinze anos, esse número ascendeu, pasmem,  a mais de 140 estatais, que certamente não deve haver uma única que atendesse aos requisitos de eficiência, competência e necessidade de satisfação do interesse público.
Na verdade, o que se viu foi verdadeira esculhambação com o minguado dinheiro dos contribuintes, que foi jogado pelo ralo da incompetência, com a criação de empresas com a exclusiva finalidade de satisfazer interesses das espúrias alianças firmadas com partidos políticos, sob a justificativa de governabilidade de coalizão, que tinha por princípio o loteamento de ministérios e empresas estatais entre os aproveitadores, em troca do apoio ao governo no Congresso Nacional, fato que foi conhecido como o seboso sistema do “toma lá, dá cá”, que aliás, acaba de ser adotado, sem o menor escrúpulo, pelo governo atual, que não se envergonhou de passar óleo de peroba na cara, para formalizar acordo para o Centrão o apoiar, naquele órgão, em blindagem contra possível processo de impeachment do presidente.
Enfim, é preciso que o ministro da economia aprenda e se conscientize de que o governo tem o dever gerencial de privatizar, com urgência e de maneira prioritária, as empresas que foram criadas com a exclusiva finalidade de contribuir ao aparelhamento do Estado e agradar aos apoiadores de governantes, as quais não passam de peso morto para os orçamentos públicos, que precisam ser aliviados o mias rapidamente possível, eis que a administração pública tem obrigação primacial de se modernizar e se aperfeiçoar nas suas estrutura e conjuntura orgânicas, principalmente em termos de gestão dos recursos públicos, que devem ser vinculados rigorosamente às políticas de Estado, em direta e inafastável satisfação do interesse público.  
A instituição mais do que secular do Banco do Brasil, sempre servindo aos interesses nacionais, com a eficiência do seu desempenho, nunca poderá ser privatizada, a despeito de possíveis dificuldades operacionais, que apenas merecem ser ajustados às regras do mercado, mas sem essa de descarte da instituição que sempre foi modelo de funcionalidade operacional, aos padrões de aperfeiçoamento na sua área de atuação, que somente aconselha, sobretudo, a sua permanência sob o comando e o controle do Estado, por meio do qual ainda é possível a facilitação de muitas operações políticas que se tornarão impossíveis com a privatização dele.
Ademais, a privatização do Banco do Brasil terá como efeito, mais do que imediato, o fechamento de agências e postos de atendimento em milhares de municípios, principalmente aqueles menores, que logo serão classificados como improdutivos e deficitários, além da dispensa de enorme quantidade de funcionários que perderiam seus empregos.
A medida aventada acima é pura realidade tupiniquim, porque isso já aconteceu com os grandes bancos brasileiros, que fecharam muitas agências  em cidades do interior, sem a menor atratividade para o banco, por ocasião da compra de outros bancos.
Vejam-se que ideia mais absurda, se concluir pela privatização certamente da instituição mais respeitada e eficiente controlada pelo governo, que somente contribui com lucro e tem sido demonstração de eficiência em toda a sua história, fatos que ajudam a compreender a sua importância como instituição pública.
Essa mentalidade absurda e absolutamente desfocada da realidade precisa, mais que urgentemente, ser demovida do pensamento do ministro da economia, que não pode pensar em suicídio somente porque tem dificuldade em interferir no banco, para impor a sua vontade, que até pode ser importante, mas mais relevante do que ela e o interesse público, que diz que o Banco do Brasil é patrimônio nacional imprivatizável, mas mesmo assim, se a for, que seja a última instituição, diante da sua importância estratégica para o atendimento do interesse público.      
Diante dessa riquíssima e impressionante história do Banco do Brasil, que não poderia ser mais nacionalista do que ele é, por vir, de longa data, contribuindo para o permanente desenvolvimento do Brasil e isso é motivo mais do que suficiente para nem se pensar na sua privatização, porque só isso já caracteriza gravíssimo crime de lesa-pátria, quanto mais em se pretender desfazer logo de instituição que é exemplo, modelo de competência, eficiência e desenvolvimento, que pode ter enfrentado crises, mas o seu impoluta desempenho mostra que a defesa do seu patrimônio jamais poderá sair das mãos dos brasileiros que amam verdadeiramente a sua pátria.
Brasília, em 24 de maio de 2020

sábado, 23 de maio de 2020

O vídeo diz que...


O vídeo da bastante desajeitada e virulenta reunião ministerial de 22 de abril pode não ter sido a morte esperada do presidente da República, mas ele tem elementos que podem sim contribuir, em termos jurídicos, para tirar o sono dele, porque há afirmações ali que se juntam a outros fatos cujo resultado pode servir para a receita capaz de complicar a paz dentro do Palácio do Planalto, quanto à denúncia de interferência política na Polícia Federal.
Na verdade, não há, no vídeo, declaração flagrante e concretamente do presidente de que interferiria na Polícia Federal, para desviar a sua missão institucional, fato que levaria à conclusão da investigação no sentido de denunciá-lo pela prática de crime.
Em circunstâncias normais, o presidente da República tem prerrogativa para mudar todos os cargos do Executivo, o que significa dizer que, sob o aspecto jurídico, não faria sentido ele fazer pressão para trocar o superintendente da Polícia Federal, no Rio de Janeiro, salvo se houvesse motivação estranha ao interesse público.
A despeito disso, o presidente construiu história sem pé nem cabeça acerca da referida mudança, sob a justificativa de que não conseguia fazer trocas “na segurança no Rio”, em relação à equipe que cuida da sua proteção pessoal, que foi entendida como sendo com relação à Polícia Federal, mas essa versão não se sustentou, diante de fato incontestável, segundo o qual, no mês anterior à reunião de 22 de abril, precisamente em março, a equipe de segurança do presidente, naquele estado, teve trocas importantes e que não seriam aquelas reclamadas por ele, em que também não houve qualquer empecilho para tanto.
As mudanças aconteceram normalmente, na segurança pessoal do presidente, pelo reconhecido mérito da qualidade do trabalho dela, em que houve premiação do comando, que foi promovido, fato este que põe por terra a alegada insatisfação por não gostar do trabalho da equipe e precisar mudar.
Na verdade, a insatisfação tinha endereço certo, que era exatamente a Superintendência da Polícia Federal, no Rio de Janeiro, diante da necessidade de se proteger, nas palavras do presidente, familiares e amigos, que, pelo menos nesse último caso, não tem direito à proteção pela segurança pessoal, que é feita por corporação diferente da Polícia Federal.
Consta do vídeo que o presidente chegou a dizer: "Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira.".
Ou seja, a investigação precisa provar ou não se a mudança do superintendente da Polícia Federal, no Rio de Janeiro, era objetivo do presidente de transformar a corporação em mera extensão dos interesses políticos ou pessoais dele, com a nomeação de pessoa da sua confiança.
Ainda cantando vitória, por entender que o vídeo não tem nada que o incrimine, o presidente do país mencionou episódio que teria sido desbaratado por amigos policiais, agentes do país que passam informações para ele, de modo informal, tendo explicado que essa é a misteriosa “segurança particular” que foi mencionada no vídeo, com mais eficiência do que a dos órgãos do governo.
A citada situação policial teria acontecido na casa de um de seus filhos, engendrada por meio de busca judicial, onde falsas provas teriam sido plantadas no local e o presidente se veria refém de chantagens.
Diante dessa situação, o presidente disse que chamou o então ministro da Justiça às falas e pediu que ele o protegesse, tendo afirmado: “Ele tem o dever de me defender”, a despeito de a segurança dele seja feita pelo Gabinete de Segurança Institucional.
Não resta a menor dúvida de que o relato desse episódio evidencia prova indiscutível do desejo de instrumentalização da Polícia Federal, de maneira indevida, em razão de a proteção do presidente ser da incumbência do citado gabinete e não do Ministério da Justiça, onde a PF é subordinada, e esse fato é de grande importância para as investigações, diante da tentativa de requisição do presidente de segurança particular, em evidente desvio de finalidade.
Na realidade, o vídeo mostra que o presidente fervia da cabeça aos pés de raiva e exigia o máximo dos ministros, em forma de combatividade e por meio de mais ações políticas, sendo que o ex-ministro da Justiça merecia cuidado especial em fora de irritação.
Fica patente que o presidente tinha por alvo o ex-ministro da Justiça, quando cobrava de seus assessores mais preocupações com seus afazeres e com a defesa da imagem dele, ao dizer: “tirem a cabeça da toca”, para defendê-lo na imprensa, e “Tem que fazer a sua parte!”, com os olhos voltados para o lado onde estava o então ministro, para quem também olhava quando avisou que vai intervir em qualquer ministério, se achar necessário.
Por fim, o presidente se volta para o ministro da Justiça. no exato instante quando pronuncia a palavra “intervir” e isso é bem visível.
O conjunto dos demais atos constantes do vídeo da malsinada reunião diz muito sobre a pobreza e a baixaria nas falas do presidente brasileiro e de alguns ministros, evidenciando deplorável e decadente nível de pessoas seletas que estão representando a nação brasileira, mas nesse ato houve a exposição da solidariedade de autoridades públicas, em demonstração inequívoca e despudorada de dizer, a um só tempo, tudo que jamais deveria ter sido sequer pensando, quanto mais dito, em razão da relevância de seus cargos e em respeito à dignidade dos brasileiros.
O mais grave de todo triste e deplorável episódio é que a predominância dos palavrões, embalados com ameaças e insinuações foi a tônica da reunião, com destaque para o cacique-mor, que se irritava por trás de suas contundentes afirmações e em momento algum se viu, por parte dele, nenhuma trégua em ponderação e respeito nem mesmo como cidadão, como mando a liturgia do relevante cargo de príncipe da República.
Em reunião de aproximadamente duas horas, quase nada se ouviu sobre atos próprios e especiais da governança e, pior ainda, sobre medidas efetivas pertinentes à gravíssima crise da pandemia do coronavírus, que teria sido excelente oportunidade para o presidente se ocupar, de forma prioritária, para levar ao importante encontro ministerial ideias sobre estudos, estratégias e outros temas inerentes ao combate a essa praga que mexe e atanaza diretamente a vida dos brasileiros.
Não obstante, o presidente aproveitou o ensejo para tecer “importantes” considerações sobre a necessidade de armar os cidadãos, com a preocupação de se evitar o surgimento de ditaduras.
Também, diante da relevância dos assuntos discutido na reunião, o nobre ministro da Educação houve bem destilar seu ódio por Brasília, afirmando que aqui é a terra de bandidos e corruptos, e ainda achou interessante e ideal o momento para dizer a sua vontade de mandar para a cadeia os “bandidos do STF”, tudo em ambiente onde não faltou quem pretendesse processar e prender governadores e prefeitos que recomendam o isolamento social, mostrando, com esse sentimento, desprezo à vida humana, visto que o confinamento é forma desejável de se evitar contágio dom o coronavírus.
Enfim, a reunião de abril de 2020, carregada de nuvens cinzentas, como visto, certamente ficará marcada nos anais da história brasileira como o dia em que os cabeças pensantes da República aproveitaram-na para demonstrar a parte folclórica da gestão pública, onde se viu um pouco de muitos palavrões, acusações, ameaças, enquanto a grave crise da pandemia do coronavírus se alastrava com força e impiedosamente sobre a população, mas nenhuma medida foi apresentada nem discutida, no encontro, acerca do seu efetivo combate, o que bem demonstra o completo desinteresse na solução dessa tragédia por parte das autoridades governamentais.
Brasília, em 23 de maio de 2020

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Insensatez?


O ex-presidente da República petista afirmou que o aparecimento da pandemia do coronavírus foi algo positivo para alertar o presidente brasileiro sobre a importância de um Estado forte para conter o avanço da crise econômica.
O petista fez essa declaração em entrevista a uma revista, tendo afirmado, ipsis litteris: "O que eu vejo? Quando eu vejo essas pessoas acharem que tem que vender tudo que é público e que tudo que é público não presta nada... Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus, porque esse monstro está permitindo que os cegos enxerguem, que os cegos comecem a enxergar, que apenas o estado é capaz de dar solução a determinadas crises.". 
Trata-se de afirmação completamente desconectada da realidade fática, porque um vírus com reflexo diretamente na saúde dos seres humanos está ano-luz do alvo que se pretendia fosse enfocado, em uma construção de imagem extremamente absurda e ao mesmo tempo ingênua pelo gigantesco esforço de se querer ligar coisas absolutamente diferentes, mas a comparação empreendida tem muito a ver com a pobre e ultrapassada mentalidade política, em querer se tentar mostrar o total desligamento do homem público com a realidade dos fatos.
A verdade é que a declaração em si serve para mostrar o real sentimento de homem público que parece viver em outro planeta completamente distanciado do mundo real, que precisa avançar urgentemente e com a velocidade da luz, para se tentar o atingimento de outros níveis de modernidade aceitável, razoável e racionalizada na gestão dos negócios do Estado, que precisa assumir, o mais rapidamente possível, o seu verdadeiro papel de ser fiel agente capaz de satisfazer às necessidades primarias da sociedade, na essência da concepção idealizada para o fiel e exclusivo atendimento do interesse público.
Para mostrar a realidade do seu tempo política, alguém chega à insensatez e à insensibilidade de se vangloriar do surgimento do poderoso coronavírus, que foi chamado de monstro e é exatamente isso, por já ter causado a eliminação, de forma cruel e impiedosa, de mais de trezentas e vinte mil vidas humanas.
Mas, indiferentemente de tudo, o líder político encontra motivo nesse monstro para afagar a sua vingativa índole, ao se contentar com a presença dele para mostrar ao governo federal que o Estado precisa ser respeitado, dando a entender a suma importância do desgraçado coronavírus, que teria vindo para satisfazer seus propósitos políticos de autêntico opositor incomodado, que precisa, ao contrário, se conscientizar sobre a imperiosa necessidade do respeito recíproco entre os homens públicos.
Ou seja, o sentimento externado pelo político é o de que o coronavírus, mesmo tendo causado destruição da humanidade, com o rastro de milhares de mortes de seres humanos, nada disso tem significância na avaliação de homem público decadente, que acha nesse vírus magistral benefício, em forma de lição ao governo, que ele precisa mudar de rumo, certamente para manter intacta a estrutura decrépita do Estado brasileiro, superlotado de empresas públicas desnecessárias, deficitárias, improdutivas, onerosas e apinhadas do aparelhamento do interesse de calejados e inescrupulosos aproveitadores do dinheiro público.
Diante da estrondosa repercussão da leviana afirmação, o referido líder político procurou se desculpar, tendo declarado que “Usei uma frase totalmente infeliz. E a palavra desculpa foi feita pra gente usar com muita humildade. Se algum dos 200 milhões de brasileiros ficou ofendido, peço desculpas. Sei o sofrimento que causa a pandemia, a dor de ter os parentes enterrados sem poder acompanhar".
Como se depreender, trata-se de pedido de desculpa muito mais por piedade do próprio ego, quando diz: “Se algum dos 200 milhões dos brasileiros ficou ofendido, ...”, dando a entender que não passa de bobagem que alguém possa se incomodar com esse tantinho do desprezo endereçado ao presidente brasileiro, não chegando nem perto do sentimento que se tem dentro do peito, que deve ser apenas explosivo de tanto ódio.
É evidente que o mero pedido de desculpa não corrige em nada a insensata e abusiva afirmação que teve por finalidade não somente agredir o governo, mas em especial milhares de pessoas que perderam a vida e os familiares delas, diante da inadmissível maldade de se elogiar a existência de algo perverso, desumano e atroz, com a finalidade de justificar seus objetivos de natureza política.
Se o político tivesse o mínimo sentimento humanitário, ele poderia não somente pedir desculpas, mas, principalmente, ter retirado do contexto da entrevista a sua infeliz e maldosa declaração, porque a simplista desculpa apenas pode alcançar às pessoas de boa índole, que foram realmente atingidas pela cáustica declaração que permanece em plena validade e com as mesmas intenções de extrema vingança por parte de alguém que demonstrou, aproveitando a monstruosidade do coronavírus, um pouco do seu verdadeiro sentimento sobre seu maior adversário político, fazendo uso de recurso carregado de extrema brutalidade, não somente para contestação, mas para atingi-los mortalmente.
Não poderia haver melhor ensinamento de anticidadania do que a declaração em comento, para se mostrar à sociedade, de maneira cabal e expressiva, o quanto o homem público brasileiro precisa evoluir, em termos de princípios e conduta humanitária, para se atingir o mínimo do nível ideal de decência e dignidade na vida pública, de maneira tal que as suas declarações sejam apenas repositórios construtivos em benefícios do aperfeiçoamento dos alicerces republicano e democrático.
À toda evidência, há absurdas declarações de homens públicos que se materializam na história, cujos autores não se envergonham de demonstrar o seu real e monstruoso sentimento político, em defesa de seus interesses e objetivos referentes à conquista do poder, quando entende que pode tudo, inclusive desrespeitar os comezinhos princípios humanitários.
Brasília, em 21/05/2020

Constrangimento?


O presidente da República declarou, em transmissão por rede social, ontem, que não é o caso de tornar público o conteúdo completo do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, porque, na sua avaliação, isso poderia resultar "constrangimento", sem dizer para quem.
A expectativa é a de que o ministro-relator do inquérito em curso no Supremo Tribunal Federal decida, a qualquer momento, se divulga, na íntegra ou parcialmente, a gravação da reunião na qual, segundo o ex-ministro da Justiça, o presidente do país fez, diretamente a ele, cobrança sobre a troca na Superintendência da Polícia Federal, no Rio de Janeiro, sob a ameaça de demiti-lo.
O vídeo é considerado como uma das principais provas para sustentar a acusação feita pelo ex-ministro, no sentido de que o presidente tentou interferir no comando daquela corporação, objeto da investigado em inquérito que tramita no Supremo.
A propósito desse caso, o presidente brasileiro afirmou o seguinte: "Vão perder amanhã. Estou adiantando a decisão do ministro Celso de Mello. Não tem nada, nenhum indício, de que porventura eu interferi na Polícia Federal naquelas duas horas de fita. Mas eu só peço, não divulguem a fita toda".
O presidente do país disse ainda que “há questões reservadas tratadas no encontro e que deveriam não ser divulgadas, além de mencionar que houve ‘palavrões’. Tudo que eu falei pode ser divulgado, exceto duas pequenas passagens, de 15 segundos cada uma, que a gente fala de política internacional e uma coisa, no meu entender, de segurança nacional e, obviamente, o que os ministros falaram, como não tem nada a ver com o inquérito, que não tornasse público, porque é um constrangimento... ficamos na informalidade, você brinca um com o outro, sai um palavrão... não é o caso de tornar público isso".
O presidente afirmou que “vai cumprir a decisão do ministro do Supremo, mas reforçou novamente que não haveria elementos na gravação para sustentar o que disse Moro.”.
Nesse caso, é possível que o constrangimento referido pelo presidente do país poderia ser tanto para ele e seu ministério como para a sociedade, porque esse verbete significa pudor por parte de quem foi violentado ou desrespeitado ou ainda exposto à situação indesejável ou imprópria, de modo a causar vergonha.
É absolutamente inadmissível que governo civilizado, sério e responsável, em termos dos princípios da decência e da moralidade, possa vir a se constranger com o que é feito em reunião da sua equipe, que, em princípio, deve ser realizada para tratar de assuntos exclusivamente de interesse nacional, podendo envolver assuntos de abrangência internacional, como foi o caso, não se permitindo que sejam discutidos temas capazes de se vislumbrar constrangimento, como insinuado claramente pelo presidente do país.
A verdade é que o presidente se apavora de medo que o vídeo em causa possa ser divulgado e, assim, dando a entender a revelação de que muitos assuntos tratados não passam de baixarias, acusações, palavrões, ameaças e outras situações que destoam da seriedade e da dignidade do que deveria ser tratado em reunião simplesmente do maior nível do Brasil, em termos da gestão pública, que não pode ser tratada sob sigilo.
É triste que o principal representante da República chegue ao ponto de correr com medo da verdade, sob a alegação, pior ainda, de constrangimento, na expectativa da divulgação do vídeo que sintetiza o que foi tratado na reunião certamente tumultuada entre o mandatário do país e seus principais assessores, justamente porque ele próprio reconhece que os assuntos tratados não são dignos dos interesses nacionais, tanto é verdade que, do contrário, não haveria o mínimo medo que ele fosse aberto normalmente ao público, sem medo de constranger à sociedade.
          É imperioso que as autoridades públicas brasileiras, ligadas ao Executivo, se conscientizem de que não passa de perda do precioso tempo ficar discutindo assuntos próprios de associação de bairro, como se fosse em botequim, cujos assuntos são classificados como preferíveis ao sigilo, com receio de constrangimento e em dissonância com o princípio republicano da transparência, que impõe à administração pública a divulgação de seus atos, salvo, por óbvio, quando eles sejam considerados de segurança nacional, quando assim eles precisam, de maneira estratégica, ser classificados, o que não é o caso dessa reunião, meramente administrativa normal.
          Convém que o salutar princípio da transparência seja engrandecido e prestigiado pelo ministro da Excelsa Corte de Justiça, para mostrar que, ao contrário do procedimento digno e ético, a reunião dos principais integrantes do Executivo é capaz de causar constrangimento, com a divulgação do vídeo em apreço, a qual também terá o condão de exemplo pedagógico, no sentido de sinalizar de que as reuniões no Palácio do Planalto sejam feitas exclusivamente para a discussão de assuntos vinculados ao interesse nacional, com a seriedade e a moralidade cujos resultados possam ser divulgados normalmente sem constrangimento.   
Enfim, o governo com comportamento que sinaliza constrangimento, por parte dele ou da sociedade, em razão da mera divulgação de vídeo de sua reunião, indica, no mínimo, falta de compostura pública e pode causar susto à nação, em razão do comportamento do presidente da República, que conduz as reuniões sob ritmo distanciado da dignidade que se espera dos encontros que, em princípio, sejam para tratar de assuntos de interesses nacionais, em alto nível de seriedade, civilidade e responsabilidade para com a coisa pública.
Ressalvados os casos de segurança nacional, assim classificados por lei, os demais casos tratados e discutidos no âmbito da administração pública devem ser do conhecimento e do domínio público, porque isso atende aos princípios próprios de governos democráticos modernos, em harmonia com a transparência dos seus atos, que precisam ser mostrados à sociedade, posto que a síntese da gestão pública tem a ver com a boa e regular aplicação do dinheiro dos contribuintes.
Os resultados dessas reuniões deveriam ser mostrados aos brasileiros, de moto próprio pelo governo, de forma prazerosa, como normal prestação de contas sobre a regularidade, a licitude e a pureza dos atos presidenciais, à luz do princípio constitucional da transparência, como fazem as Repúblicas sérias e evoluídas, em termos democráticos.   
Brasília, em 22 de maio de 2020

quinta-feira, 21 de maio de 2020

A desaprovação da Cloroquina?


Diante da crônica intitulada “O estudo científico brasileiro”, versando sobre a desaprovação do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, por três importantes entidades científicas representativas de classes médicas, tendo por base estudos realizados em hospitais brasileiros, um dos maiores defensores brasileiros desse remédio contra o Covid-19 se manifestou nestes termos: “Fácil de explicar a ausência de estudos acadêmicos randomizados sobre a Hidroxicloroquina: 1) Seus efeitos benéficos ou colaterais são conhecidos há décadas; 2) Custa pouco e não possui patente. Pode ser produzida livremente. 3) o mais importante: quem financiaria esses estudos sem retorno financeiro? No Brasil, a mais severa contra indicação para seu uso, é ter que concordar com Bolsonaro. As mortes de muitos são apenas notícias e estatísticas.”.
Em resposta ao aludido comentário, eu digo que o raciocínio ali exposto pode ter alguma pertinência acerca dos fatos referentes ao combate do coronavírus, que são consistentes com os tratamentos, remédios etc., mas as ações do governo carecem, urgentemente, passar pelo crivo da transparência, que é algo absolutamente inexistente, quando ela deveria vir na frente de tudo, à vista da reação avassaladora de profissionais da área da medicina, em  especial por parte de infectologistas, que convivem diretamente com pacientes infectados com vírus, conforme se aborda mais adiante.
Para se ter ideia, hoje mesmo o governo liberou geral o uso da cloroquina, mas com importante porém que me deixou bastante estarrecido, qual foi a sinalização de regra escrita, por meio dela condiciona a autorização do uso do remédio somente se o paciente assinar termo concordando e isentando o médico de responsabilidades, dando a entender, mais claro impossível, que há algo de risco, de complicador no tratamento, o que é muto grave, em termos de tratamento médico, embora não haja alternativa.
Certamente que, nas piores republiquetas, os tratamentos são administrados absolutamente sob a orientação das normas cientificamente aprovadas pelo conjunto da classe médica, em que as orientações são estabelecidas com base em estudos e experiências de conduta médica.
Há outros países que fogem a essa saudável e fundamental regra, dando a entender que tem algo estranho ou errado que não pode ser revelado, talvez a existência de algum entrave que divirja da normalidade e isso foge dos princípios da pureza perseguida pela civilidade da medicina moderna.
Em termos de competência gerencial, todo procedimento que envolva o tratamento da saúde do ser humano precisa haver licitude, transparência e respeito aos princípios éticos.
No caso específico do combate ao coronavírus, não se tem conhecimento de norma alguma produzida pelo governo brasileiro, no caso o Ministério da Saúde, mostrando, de maneira clara como estão sendo conduzidas as questões pertinentes à pandemia, justamente como forma primária de se mostrar à sociedade, repita-se, de forma transparente, como a equipe do governo vem trabalhando, de modo a transmitir transparência e segurança para a população.
A propósito da liberação do uso dos remédios em apreço, algumas entidades e profissionais se manifestaram em contrariedade à medida adotada pelo governo, conforme os textos transcritos a seguir, que foram publicados na imprensa escrita.
A Organização Mundial da Saúde disse que "Nem a cloroquina nem a hidroxicloroquina têm sido efetivas no tratamento da Covid-19 ou nas profilaxias contra a infecção pela doença. (...) Nós temos agora ensaios (clínicos - pesquisas) do Solidarity (iniciativa internacional em busca de tratamentos para a Covid-19) em vários países, nos quais a cloroquina e a hidroxicloroquina estão incluídas. Como OMS, nós recomendamos que, pra a Covid-19, essas drogas sejam reservadas para uso dentro desses ensaios.”, ou seja, com descarte do uso deles em tratamento médico-hospitalar.
Uma bióloga formada pela Universidade de São Paulo, PhD com pós-graduação em Microbiologia, afirmou que "Esta é uma situação absurda. A gente tem inúmeros trabalhos mostrando que a hidroxicloroquina não é eficiente no tratamento em nenhuma etapa da Covid-19. Essa mudança de protocolo vai trazer um uso precoce do medicamento sem nenhuma fundamentação científica. Nós temos trabalhos em modelo animal, e é assim que se testa um medicamento. Devido ao hype e à pressão da população pela droga, as pessoas começaram a testar em humanos, e foi passada uma impressão errada de que o medicamento pudesse funcionar. Primeiro testaram em células, células genéricas, uma linhagem fácil de manipular em laboratório, e funcionou a cloroquina, mas isso não quer dizer que funcionaria em outras células e em animais. E foi exatamente isso que os outros testes mostraram: que não funciona. Você passa a testar em animais e a hidroxicloroquina não funciona. Inclusive, quando passa a ser usada em animais ela aumentou a replicação (do coronavírus). Também testaram em células-alvo, células do trato respiratório, e também não funcionou. Foi testado em macacos, camundongos, em todos os estágios da doença. Não foi capaz de reduzir a carga viral".
Um especialista da sociedade Brasileira de Infectologia, em São Paulo, disse que "Logo no começo do documento tem um 'considerando que não tem evidência científica para o tratamento específico da cloroquina'. Esse 'considerando que não tem evidência científica' já mostra que não tem sentido nenhum usar nenhum tipo de medicação. Ele é um documento político. Só para dizer que tem um protocolo. E coloca bem claro que fica a critério do médico e do paciente decidir. É basicamente um documento político que não acrescenta em nada".
Uma infectologista do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, esclareceu que, "Do ponto de vista da ciência, esse documento não muda nada, na minha opinião. A prescrição médica continua sendo a opinião do médico e, de preferência, baseado em dados científicos em que se leve em conta todos os aspectos, como eficácia, segurança e momento da doença. Esse documento, do ponto de vista prático, não muda nada na minha conduta pessoal.".
Outro infectologista do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, ressaltou que "Todo médico segue ou deveria seguir os estudos científicos na hora de dar um medicamento. Esses estudos mostram que usar ou não a cloroquina, neste momento, não tem respaldo científico. Foram feitos vários trabalhos de pesquisa em várias partes do mundo e nenhum trouxe resultado promissor. Como medicações podem causar efeitos colaterais, há um risco no uso deste medicamento.".
Um infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia declarou que "A adoção da cloroquina é uma decisão política tomada por pessoas que não são médicas. Sou médico desde a época em que surgiram as primeiras infecções por HIV e naquele momento muitas pessoas falavam o que vinha à cabeça. Usavam um medicamento que deu certo em um paciente e já achavam que daria certo para todos. Mas quem está lidando com os pacientes de Covid-19 sabe que tem pessoas que vão muito bem contra a doença e outras que vão muito mal, independente do medicamento. Atribuir (a cura da Covid-19) a uma droga tão antiga, cujo mecanismo de ação e efeito biológico são tão diferentes, não tem o menor sentido.".
Mais um infectologista do Hospital das Clínicas “A gente tem um país muito heterogêneo. Então, abre a possibilidade de os profissionais médicos usarem, apesar de a gente falar inúmeras vezes da falta de evidências, mas abre a possibilidade de uma expansão do uso da medicação, mesmo com todos os poréns já colocados. Quando saíram os primeiros estudos houve muito furor, mas à medida que ampliamos os estudos, no contexto da ausência de evidências, a gente passa a olhar com muita cautela para essas medidas (do governo federal)".
Outra autoridade na infectologia da Fiocruz informou que "O que vai acontecer é que muitos médicos vão prescrever indiscriminadamente, não vão se atentar à nota publicada no protocolo do Ministério da Saúde ou à recomendação do CFM para usar em casos confirmados, e depois que o paciente tiver um problema associado ao medicamento, o médico poderá ser responsabilizado legalmente porque não está de acordo com o CFM, nem com o protocolo do Ministério da Saúde. Não é uma droga para ser usada na suspeita de um caso, nem pela população. Minha preocupação maior é que esta droga não tem evidências científicas e há literatura que inclusive condena o uso.".
Alguns representantes do Conselho Federal de Medicina, em reunião com presidente brasileiro, deixaram patente que “o CFM não recomenda o uso da hidroxicloroquina  para pacientes em tratamento de Covid-19.”.
O CRM afirmou ainda que “decidiu liberar os médicos a receitarem o remédio em três casos específicos (...), com o devido acompanhamento em hospitais.
Um grupo de médicos e cientistas do Rio de Janeiro divulgou nota sobre o novo protocolo da cloroquina/hidroxicloroquina, para o tratamento da Covid-19, tendo afirmado que, “com base em 71 estudos ou artigos publicados renomados institutos e cientistas do mundo, não há evidências científicas favoráveis que sustentem o uso do medicamento.” e que “que há estudos que demonstram que o uso de cloroquina para o tratamento de Covid-19 pode estar associado à maior frequência de eventos adversos graves e com maior letalidade. Para os pesquisadores, o uso do medicamento deve ser restrito a protocolos de pesquisa aprovados por comitês de ética em pesquisa. Outra conclusão é a de que a prescrição de um tratamento sem comprovação científica de eficácia, mas com demonstração de risco de efeitos colaterais graves, poderá fazer com que o prescritor incorra em dano a preceitos legais ou éticos.”.
Ao que tudo indica, o governo não pretende assumir qualquer responsabilidade em caso do insucesso das medidas de que trata o protocolo em apreço e muito mens de se comprometer em buscar alternativa, dando a entender que esse documento, por si só, já satisfaz e garante o sossego da população, mas, à vista dos pronunciamentos transcritos acima, o caso não é tão pacífico assim, da complexidade que envolve a aplicação das drogas de que se tratam.
A verdade é que só se viram manifestações especializadas em sentido contrário aos planos do governo e, pasmem, nenhuma, isso mesmo, absolutamente nenhuma voz de médico nem instituição de representação de classe médica se levantou em pronunciando em socorro à implantação do protocolo em apreço, diferentemente do que muitos se apresentam nas redes sociais, que mostram os benefícios dos questionados remédios.
Isso bem demonstra que, nesse caso, o presidente do país se encontra realmente abandonado, com ou sem razão, o que confirma, com clareza, a completa falta de transparência e competência para tratar de assunto extremamente importante para a sociedade, no caso específico da saúde pública, que não pode ser resolvido de maneira unilateral e em dissonância do apoio de quem o domina, por força dos conhecimentos e das experiencias profissionais, que são de vital importância neste momento bastante difícil.
Convém que a sociedade tenha acesso às informações esclarecedoras por parte dos profissionais e entidades ligadas às áreas médicas e de saúde e também se esforce em acreditar neles, como forma de se inteirar sobre os fatos que não são do interesse do governo em torná-los transparentes, notadamente de que não há ninguém, nada em defesa de seu protocolo, que não passa de verdadeiro documento com viés político, absolutamente desapadrinhado da importante classe médica brasileira, no sentido de defendê-lo em público.
Quero deixar muito claro, em definitivo, que meu objetivo é apenas esclarecer os fatos e, principalmente, que não estou contra nem a favor senão da maneira correta de se agir, tanto da parte do governo como de quem quer que seja, porque é preciso que os procedimentos sejam feitos às claras e de forma objetiva, não deixando dúvidas quanto à maneira correta e precisa para se atingirem os objetivos colimados.
No presente caso, não tem a menor dúvida de que governo competente, eficiente e responsável, comprometido com a transparência, a correção e a integridade da gestão administrativa, jamais adotaria protocolo nessas condições em que os questionamentos sobre as suas normas são praticamente insolúveis e preocupantes, sob o prisma da Ciência da Medicina, que o põe em cheque, em que pese a saúde pública esteja mergulhada na pior crise da sua história, razão maior de se gerenciá-la com o sublime espírito de sensatez e perfeição quanto às medidas necessárias à superação das dificuldades, com vistas ao melhor atendimento do interesse público.
Nesse contexto, refiro-me aos estudos, por parte do governo, referidos em textos anteriores, nos quais foi aventada a necessidade da composição de comissão específica para se estudar as medidas de combate à pandemia do coronavírus, inclusive o protocolo médico implantado oficialmente hoje, sem o indispensável consenso por parte de profissionais da área médica, fato que contribui para amenizar a sua importância como instrumento de tratamento dos doentes de Covid-19.   
Enfim, os brasileiros esperam, por acreditarem na generosidade de Deus, que os segmentos de opinião contrária ao protocolo implantado pelo governo federal sejam vencidos pelas força e competência das pessoas que trabalham nos hospitais, porque elas estão operando verdadeiros milagres na batalha imorredoura, salvando vidas e lutando para a superação das dificuldades próprias do seu importantíssimo ofício.
Brasília, em 20 de maio de 2020

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Estudo científico brasileiro


A imprensa publicou reportagem, na data de ontem, no sentido de que a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia informaram que 27 especialistas analisaram medicamentos e terapias aplicados em pacientes infectados com Covid-19, tendo por base a cloroquina e a hidroxicloroquina, e chegaram à conclusão de que diversos procedimentos postos em prática "carecem de apropriada avaliação de efetividade e de segurança".
Nos termos do documento elaborado pelas mencionadas instituições representativas de profissionais da medicina, as aludias drogas, que são receitadas usualmente para o tratamento da malária, “não devem ser usadas como tratamento  de rotina contra o novo coronavírus (Sars-CoV-2)”.
As referidas entidades disseram que, após a revisão de três estudos, os especialistas afirmam que "as evidências disponíveis não sugerem benefício clinicamente significativo".
Elas informaram ainda que os medicamentos cloroquina e hidroxicloroquina representam “risco moderado de problemas cardiovasculares nos pacientes, como arritmia.”.
Consta desse documento que o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina só pode ser considerado para “casos graves, de pessoas hospitalizadas, em ‘decisão compartilhada entre o médico e paciente.’. Os profissionais de saúde devem evitar ministrar, ao mesmo tempo, medicamentos que também alterem os batimentos cardíacos.”.
Trata-se de decisão da maior importância para o tratamento da Covid-19, à vista de traduzir o consenso de três entidades científicas brasileiras que recomendam, de forma categórica, que não  utilizem a hidroxicloroquina, a cloroquina e de suas associações com azitromicina, na rotina do referido tratamento.
Conforme a reportagem, os estudos que levaram a essa importante decisão foram  liderados pela Associação Hospitalar Moinhos de Vento (Porto Alegre), pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz e pelo Hospital Sírio-Libanês (São Paulo), que estão entre os principais hospitais brasileiros, em atuação no tratamento da Covid-19.
Na opinião desses especialistas, “O nível de evidências para uso da cloroquina e sua derivada é fraco.”.
O aludido grupo foi composto por infectologistas, especialistas em medicina intensiva, pneumologistas, farmacêuticos, epidemiologistas e especialistas em saúde pública, que promoveram revisões em estudos disponíveis sobre as terapias diversas contra a Covid-19.
De acordo com as entidades científicas, os pesquisadores se basearam em dois ensaios clínicos randomizados, que consistem em estudo com as evidências mais robustas sobre a eficácia ou não do medicamento, e abertos em pacientes com doença leve a moderada e estudo de coorte, considerando os dados disponíveis nos supracitados hospitais.
As entidades científicas atestam, com total segurança, que "as evidências disponíveis não sugerem benefício clinicamente significativo do tratamento com hidroxicloroquina ou com cloroquina", tendo reafirmado que esse mesmo entendimento vale para o uso da combinação desses remédios com a azitromicina.
Os especialistas esclarecem que as avaliações foram realizadas em pacientes hospitalizados, não tendo experiência com base para uso ou não da droga em pacientes ambulatoriais, o que significa dizer que a utilização dos estudos só tem aplicação para pacientes graves ou críticos, hospitalizados e com monitoramento da sua situação clínica.
Em que pesem as evidências científicas, obviamente com base em estudos em processos de acompanhamento clínico de doentes do Covid-9, não recomendarem o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina nesses casos, o presidente brasileiro decidiu que hoje vai haver a mudança do protocolo médico, autorizando o uso dessas drogas para todos os casos.
A compreensão que se tem sobre a recomendação científica em apreço é a de que os remédios de que se tratam não são totalmente eficazes, não descartando possíveis casos em que eles foram eficientes, em planos comparativamente a placebos, que são aplicados em procedimento inerte, que podem até apresentar efeitos terapêuticos devidos aos sentimentos psicológicos da crença do doente de que ele precisa ser tratado e curado, tendo por base a medicação ministrada para ele.
Ou seja, assim como o placebo pode resultar em efeito positivo, também pode acontecer com os remédios que estão sendo administrados aos pacientes da Covid-19, na esperança, por parte do doente, de que aquelas drogas são capazes de produzir a sua cura, graças não propriamente aos efeitos terapêuticos deles decorrentes, mas sim psicológicos, conforme demonstram as experiências científicas, largamente difundidas.
É evidente que o presidente brasileiro não tem alternativa, nas circunstâncias, a par do desaconselhamento da medida por entidades científicas, ou seja, inexiste amparo científico.
Na verdade, há toda evidência de que os interesses políticos prevalecem nessa questão, ficando muito patente que a decisão presidencial se harmoniza perfeitamente com a sua linha tresloucada de contrariar as políticas de combate ao coronavírus, que tem sido disseminada permanentemente.
Convém se compreender que as políticas públicas precisam se harmonizar com os princípios da racionalidade e do bom senso, levando-se em conta estudos, experiências e demais normas compatíveis com as regras e condutas de boas gestões públicas.
Não se quer dizer com isso, fazendo juízo de valor antecipado sobre a atitude do presidente, principalmente porque ele parte do pressuposto de que o seu projeto só vai beneficiar a população, sem se levar em conta a voz da ciência, que, em princípio lógico, precisaria prevalecer nesse caso de suma importância para a saúde  e o interesse públicos.
É preciso se atentar para o fato de que a questão não poderia ter sido decidida apenas na vontade política do presidente, na opinião de alguns médicos e de seguidores dele, quando há importantes opiniões divergentes, a exemplo das adotadas pelas aludidas entidades científicas, que tiveram o cuidado de estudar, avaliar e revisar, a fundo, a questão relacionada com o coronavírus, para se concluir que não vale a pena a administração dos remédios em questão.
O que se pretende suscitar, com toda essa divagação, com vistas ao melhor encaminhamento acerca do combate à momentosa pandemia do coronavírus, é que o tratamento conduzido pelo governo pudesse  envolver nele a sociedade em geral, em que, de maneira democrática, os especialistas, as entidades representativas de classes profissionais, os estudiosos, como forma de benéfica contribuição com seus conhecimentos e suas experiências, na positiva participação na busca da melhor solução para tão difícil crise da saúde pública brasileira.
Enfim, diante dessa realidade, em que entidades científicas, especialistas da área vital da saúde pública, se pronunciam pela inutilidade do tratamento da gravíssima doença do Covid-19 com o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, e o governo, com base apenas na experiência política do presidente da República, sem nenhum aconselhamento técnico-científico oficial, porque é inexistente, e com o apoio de boa parte da população, decide implantar o novo protocolo médico para o tratamento daquela doença.
Queira Deus que as nossas preces sejam ouvidas, no sentido de que, com a aprovação do novo protocolo médico, os medicamentos cloroquina e hidroxicloroquina passem, com as graças divinas, a fazer efeitos efetivos e milagrosos contra o Covid-19, em contrariedade aos resultados científicos firmados por respeitáveis entidades especializadas em saúde pública.
Brasília, em 20 de maio de 2020