domingo, 1 de novembro de 2020

Os princípios da evangelização...

         O direito à felicidade é universal, sendo impossível negá-lo a quem quer que seja, não importando as razões de consciência, pensamento nem ideologia e nesse ponto o papa jamais poderia pensar diferente, diante do Evangelho de Jesus Cristo, que tem como princípio exatamente a busca da fraternidade e do amor entre os homens, sendo que a síntese disso se confunde com a própria felicidade.

É preciso, isto sim, que o papa se esforce para que a Igreja Católica encontre mecanismo capaz de atrair para o seu seio todas as pessoas filhas de Deus, inclusive os homossexuais, exatamente porque em manual nenhum há regra estabelecendo as condições básicas para a classificação de quem pode ou não ser filho do Pai eterno, senão todos os homens.

Agora, o que muito se estranha é que a igreja tem a sua doutrina aplicável aos católicos, inclusive ao papa, e este vir a solidarizar-se com essa união, mas somente no aspecto civil, havendo aí brutal paradoxo de entendimento, exatamente porque os homossexuais são tanto filhos de Deus no civil como muito mais ainda no religioso, que diz essencialmente com a paternidade natural de legítimo filho de Deus.

Todo religioso, inclusive o papa, precisa se conscientizar de que Deus certamente não enxerga defeito nos seus filhos, se é que o homossexualismo possa ser considerado falha à luz Dele, diante da sua perfeição na criação do homem, sob a ótica de que ninguém nem nasceria se tivesse defeito físico ou moral, não importa, porque, para Deus, todos são seus filhos amados.

É preciso urgentemente que o papa encontre argumento suficiente para se reconhecer também o homossexual perante a Igreja Católica, em todos os sentidos civil, religioso e demais situações inerentes ao ser humano em si, sem o estabelecimento de qualquer condição, porque é exatamente dessa forma que se declara e se reconhece a plena dignidade humana, como pessoa filha de Deus, sem restrição, ressalva nem nada que possa servir de empecilho para o homem ser filho do Pai eterno e puder ser aceito normalmente no seio da Igreja Católica, que não é perfeita e padece de muitos pecados, inclusive mortais.

Espera-se que o Vaticano possa evoluir como instituição moderna e atualizada, à luz dos avanços naturais da humanidade, para o fim de abolir as doutrinas e os dogmas que sejam contrários aos princípios da evolução do ser humano, caso em que todo homem possa ser apenas considerado filho de Deus, independentemente das suas preferências, idiossincrasias ou sentimentos.

É preciso que o usufruto do direito sagrado da felicidade não possa ser condicionado por nada neste mundo, nem mesmo pela Igreja Católica, que precisa muito cuidar e se preocupar estritamente da evangelização que lhe compete, por excelência, quanto à sua primordial missão exclusivamente de catequização segundo os princípios essenciais do cristianismo.

Na era de pleno reconhecimento da modernidade, conquistada mediante os avanços dos conhecimentos científicos e tecnológicos, é preciso também que a Igreja Católica se reinvente nas suas estruturas, como forma salutar de se situar emparelhado com a atualidade, que aconteceu exatamente por obra e graça da vontade de Deus, porque nada surge, nasce e prospera sem que não tenha a mão Dele, segundo as pessoas que acreditam na existência desse ser supremo e poderoso.

Não faz o menor sentido que a Igreja Católica continue como instituição conservadora de dogmas que somente tendem a preservar a ideia de algo fechado, engessado, limitado e afeito à restrição do pensamento ou até mesmo como uma forma de controlar o comportamento do homem, porque nada disso condiz com os princípios saudáveis de evangelização dos ensinamentos de Jesus Cristo, que há mais de dois mil anos pregava a palavra de acolhimento de todas as pessoas, inclusive, entre outras, de prostituta e todas aquelas que confessavam a sua crença nas sagradas palavras Dele.

Por que se justificar a existência de certas doutrinas que, com elas ou não, em nada vai influenciar na grandeza da Igreja Católica como tal, que tem a doutrina maior definida de pura e essencial evangelização dos princípios da fraternidade e do amor entre os irmãos filhos de Deus, na própria formulação ressaltada pelo papa?

Do ponto de vista da doutrina católica, o que importa para Deus é exclusivamente a definição verdadeira e essencial quanto à fé e à crença no Evangelho de Jesus Cristo e nos mistérios revelados pelo Pai, como afirmação definitiva de filho de Deus.

Em princípio, salvo caso gravíssimo praticado contra suas doutrinas e seus dogmas, a Igreja Católica não tem competência para excluir ninguém dela, nem muito menos os homossexuais, porque eles são tão filhos de Deus quanto os mais puros e santíssimos religiosos, que pregam a palavra divina, mas fica, ao mesmo tempo, se preocupando com a vida de quem também tem direito de ser feliz na maneira escolhida para a viver no universo de Deus, segundo o livre arbítrio facultado aos homens de boa vontade.

           Brasília, em 1° de novembro de 2020

O objetivo é resgatar Uiraúna?

 

A candidata ao cargo de prefeita de Uiraúna, Paraíba, Leninha Romão, apresentou quitação do débito referente a possível sonegação fiscal objeto de denúncia do seu opositor, mostrando a sua regularidade junto ao Fisco, com relação a esse fato, a par de esclarecer que quer governar a cidade como servidora pública consciente de querer fazer o melhor para o povo.

Ela disse que “Meu objetivo é resgatar Uiraúna das trevas, das mãos do ódio, da calúnia, da alienação e da ilusão. É construir uma história de orgulho e progresso para o meu povo que há tempos clama por sua tão sonhada liberdade!”.

À primeira vista, a interpretação que se pode intuir das palavras da candidata é a de que aquela cidade se encontra sob o caos e a escravidão, provavelmente em termos de gestão pública.

Normalmente, o bom nordestino mata a cobra e mostra o pau e a cobra.

Quanto ao caso específico de sonegação de impostos, a candidata Leninha apresenta comprovante da quitação referente ao débito de que se trata, com data de 2015.

Em se tratando de campanha eleitoral, parece conveniente que ela apresente aos eleitores quitação com o Fisco, na atualidade, para que não resida mais a menor dúvida sobre nenhuma forma de suspeita, neste particular.

Assim, sobre esse questionamento é provável que o fato esteja esclarecido, salvo se o acusador tiver algo mais a revelar sobre ele.

Agora, sobressai em aberta a comprovação sobre as declarações feitas pelo adversário dela, conforme revelação bombástica da lavra dela, que carece de confirmação, por parte das testemunhas, no total de cinco, à vista da declaração do principal acusado de que a aludida conversa jamais ocorreu.

O certo é que, nestas alturas dos acontecimentos, se alguém faz acusação de extrema gravidade, inclusive sobre fato bastante comprometedor, em termos de credibilidade de ambos os lados, e a outra parte nega, quem acusou fica na obrigação moral de mostrar que disse a verdade sobre o fato revelado, sob pena de se passar por mentiroso, ante a suspeita de invenção de fato que não foi comprovado, depois de ele ter sido negado pelo acusado.

A verdade é que a denúncia circunstancialmente vinda a público, em momento delicado da campanha eleitoral, não pode, agora, ficar sem os devidos esclarecimentos, não importando mais os estragos que isso possa causar a ambos as candidaturas, porque, como se diz no popular, o leite já foi derramado e a alternativa é a de se diligenciar no sentido de que o caso se encerre o mais rapidamente possível, de preferência com os pronunciamentos das testemunhas ou gravações sobre a fala do acusado, contendo a ameaça das medidas reveladas pela candidata.

É preciso se atentar para o fato especial de que, se Leninha silenciar, agora, sobre a denúncia feita por ela, a grave consequência diz com a possível caracterização do crime de danos morais, além de ela ter que se passar por mentirosa, por ter inventado fato da maior gravidade que foi negado pelo acusado e ficado sob o silêncio dela, i.e., sem a devida resposta, ou seja, ela termina assumindo que realmente se trata de algo mentiroso.

Para se evitar piores consequências, convém que esse fato seja elucidado o mais rapidamente possível, na mesma maneira como ela esclareceu o questionamento sobre a sonegação de impostos.

Fica o apelo aos candidatos no sentido de que prefiram, de forma prioritária, a escolha para o debate limpo e inteligente de somente assuntos exclusivamente relacionados com os projetos e as metas de trabalho destinados aos seus governos, no caso de quem for vitorioso, como forma de atendimentos aos melhores propósitos ansiados pelo povo de Uiraúna.

Brasília, em 1° de novembro de 2020  

sábado, 31 de outubro de 2020

O desequilíbrio de jovens

 

Diante da crônica que analisei a sandice de um bando de jovens destruindo imagens de santos, em clara demonstração de intolerância contra a crendice religiosa, muitas foram as pessoas que se manifestaram em apoio ao meu texto.

Destaco a mensagem do escritor uiraunense, o mestre Xavier Fernandes, que assim se expressou: “Caríssimo Mestre, Adalmir, Seu comentário é Muito oportuno, pois nossas origens religiosas não aceitam nem permite tal barbárie. Somos católicos do terço, das orações, das novenas, das missas dominicais e do respeito as imagens dos nossos amados Santos e beatos. Como católico, seguidor da igreja Romana. Fiquei profundamente entristecido e revoltado com estes atos insanos praticados por jovens alheios a moral, ao respeito e aos princípios sagrados das religiões que cada um cidadão pode optar, sem precisar ferir nem subestimar a fé do outrem, Vivemos uma democracia que nos permite a liberdade religiosa. Ninguém de qualquer religião que seja, pode ser massacrado por atos maldosos, sem escrúpulos como esses, quando Jovens ensandecidos, desorientados chegam a esse estágio, violando os símbolos sagrados que pra nós católicos São intocáveis, sacratíssimos, veneramos e amamos que são as imagens dos nossos Santos dos quais somos devotos e pedimos à proteção para as nossas dores, sofrimentos e necessidades , além das suas preciosidades como símbolos sagrados, são também essas imagens puras obras de arte, e que esses atos criminosos são destrutivos ao patrimônio artístico, cultural e sagrado levando consigo a destruição da memória e história de um povo dedicado a fé em Deus e nos Santos que intercedem por nós. Esses jovens canalhas, anarquistas, Vândalos e criminosos devem responder criminalmente por tão grande mal , por suas atitudes desprezíveis, sem nenhum objetivo, nem justificativa. Um crime inafiançável, Feriu a comunidade católica profundamente. Uma Blasfêmia! Contra a nossa igreja. Contra a nossa religião alicerçada na fé e no amor A Deus...Um forte abraço! Deus conosco!”.

Em resposta à aludida mensagem, eu disse que realmente nos causa grande dor no coração quando as pessoas insensatas e insanas extravasam o limite da normal e racional razão e agredirem graciosamente com atos violentos e irracionais o direito sagrado de outrem, que sempre procura respeitar os princípios salutares da cidadania, que dizem com a necessidade do respeito recíproco às regras de convivência pacífica.

Trata-se de padrão de comportamento absolutamente condenável desses jovens, por extrapolarem os limites de civilidade e cidadania.

Contra tais atos deploráveis há a necessidade da conscientização da sociedade para combater esses absurdos advindos de jovens desequilibrados e insatisfeitos com a própria vida.

Em qualquer circunstância, não justificam os atos de vandalismo e destruição do patrimônio religioso-cultural, que nada mais é do que o conjunto de obras de arte do patrimônio cultural dos brasileiros.

Temos sim que lamentar todas as formas de agressão aos sentimentos das pessoas dignas e de boa vontade, por terem seus direitos violados de maneira vil, graciosa e injustificável.

Brasília, em 27 de outubro de 2020  

A seriedade da brincadeira

            O presidente da República, em visita ao Estado do Maranhão, provocou, de maneira debochada, o povo desse estado, ao dizer, rindo, ao tomar o refrigerante “Coca Jesus", que é tradicional na região: “Agora virei boiola igual maranhense, é isso? É cor-de-rosa do Maranhão aí, ó. Quem toma esse guaraná aqui vira maranhense, hein?".

Considerando que a bebida é de cor rosa, ele questionou os apoiadores, dizendo: "Que boiolagem é isso aqui?".

Diante da imediata e generalizada repercussão negativa, o presidente pediu desculpas por sua desastrada declaração, nas redes sociais, em transmissão ao vivo, tendo afirmado: "Foi uma brincadeira, mas a maldade está aí. Quem se ofendeu, eu peço desculpas".

Alguns deputados federais anunciaram que vão representar contra o presidente do país junto ao Ministério Público Federal, solicitando a abertura de investigação para apuração quanto à possível prática do crime de homofobia, sob a alegação de que se trata de "piada" de tom homofóbico feita pelo mandatário do país.

Embora o presidente do país possa ter entendido que tudo não passou de mera brincadeira, não há a menor dúvida de que, na avaliação das pessoas normais, não se pode tratar assunto sério como simples brincadeira, quando no seu conteúdo há substancioso conteúdo de preconceito contra a classe de pessoas que merecem respeito, quanto mais que elas são objeto de forte discriminação no seio da sociedade.

A situação se torna ainda mais inaceitável porque se trata de expressões pronunciadas pela principal autoridade do país, que tem obrigação moral de ser modelo de civilidade e cidadania, para mostrar ao mundo que a construção e a consolidação da dignidade da sociedade depende essencialmente dos bons exemplos e jamais com expressões de gracejos pobres e com a visível intenção preconceituosa de se provocar riso, em tom circense absolutamente inadequado, à custa de gente pura e cheia de bondade no coração.

O estadista, com o mínimo de sensibilidade e educação, precisa se conscientizar de que o respeito aos direitos humanos é um dos principais deveres do mandatário do país, tendo em conta, em especial, que qualquer forma de discriminação constitui crime, à luz da legislação penal brasileira, que o presidente do país jurou, no compromisso de posse, observá-la rigorosamente no seu mandato.

Diante da agressividade ao povo do Estado do Maranhão e à classe que tem sido permanente objeto de discriminação, a retratação do presidente somente tem o condão de aliviar a sua falta de sensibilidade para questões de extrema seriedade e respeito, ficando a precisa lição de que o estadista tem o dever moral de se policiar permanentemente, para se evitar que graves gafes como essa sejam definitivamente eliminadas do seu vernáculo, por ser também da sua primacial obrigação respeitar os princípios humanitários ínsitos nos direitos humanos.

Enfim, senhor presidente, pode até vossa excelência ter tido a intenção de provocar mera “brincadeira”, mas brinquedo mesmo, no estrito sentido de seriedade, exige-se que ele se construa sob a forma de sensatez e responsabilidade, de maneira estritamente voltada para o riso da pureza e da animação que não possa envolver sentimento preconceituoso ou interpretação discriminatória do ser humano.      

Diante da interpretação visivelmente preconceituosa com que se houve o presidente da República, nesse caso em referência, compete aos brasileiros se manifestarem em repúdio à maneira leviana e desrespeitosa contida na “piada” que ele classificou como “brincadeira”, que foi, ao contrário, entendida pelas pessoas sérias como maldade à dignidade do ser humano.

           Brasília, em 31 de outubro de 2020

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Apegação à causa justa

         Diante da crônica que relatei a pobreza dos debates da campanha eleitoral em Uiraúna, Paraíba, à vista das acusações dispensáveis e fora dos propósitos e objetivos próprios dos debates, uma distinta e sempre atenta senhora escreveu a seguinte mensagem, verbis: “Uiraúna precisa de modernidade e progresso, para crescer se destacar no País. Amo minha terra e meu povo. Vamos que vamos fazer a diferença! Mudar o cenário de mais de 20 anos.”.

Em resposta à expressiva mensagem, eu disse que me associava à tão importantes palavras.

Se eu não amasse tanto Uiraúna jamais escreverei as minhas crônicas com tanta contundência como faço e com as maiores clareza e objetividade, justamente para chamar a atenção da povo para os fatos nelas enfocados, normalmente mostrando a carência de saneamento ou mudança, e sei que muitos de meus conterrâneos não estão nem aí, no caso da continuidade do status quo.

Já ouvi de pessoas amigas e sinceras que moram em Uiraúna me dizerem que minhas crônicas desagradam muito mais do que agradam, justamente porque eu escrevo direto ao assunto e sem compromisso para agradar quem quer que seja, senão com o primordial desejo de que os meus textos possam ser lidos por pessoas de boa vontade e decididas  finalmente a compreenderem que há necessidade de atitude corajosa para se dizer basta à decadência que tem sido a marca registrada impingida ao povo daquela cidade.

Eu respondi que não estava muito preocupado com a opinião contrária à minha, não, porque essas pessoas estão mesmo é precisando de um pouco de elevação cívica e intelectual para compreenderem que somente com mudanças reais e efetivas de mentalidade será possível tirar Uiraúna da situação que se encontra, onde as pessoas têm medo de se manifestar sobre os próprios pensamentos e dizerem o que precisa ser mudado para melhorar o que for possível, em beneficio de todos.

A crônica em apreço, por exemplo, nada mais é do que corajoso e estridente grito, ensurdecedor mesmo, em apelo à civilidade e à compreensão aos principais políticos que estão disputando o principal cargo da cidade e torso muitíssimo para que eu não erre, porque tenho certeza absoluta de que se trata do meu perfeito eco silencioso aos moucos, por ter a certeza de que o meu grito não haverá ressonância, na certeza ainda de que todos eles estão muito bem conscientes de já estarem no caminho certo.

Outro dia mesmo, falando com ilustre e expoente, reconhecido professor, filho de Uiraúna, ele me disse com muita clareza que não opinava em assuntos políticos com relação à nossa terra natal, quando lamentei profundamente que a reconhecida experiência dele seria de grande valia para o povo, em forma de muitas e excelentes melhorias.

Acredito que muitas pessoas com a inteligência dele devem ter a mesma mentalidade de se imaginar que melhor mesmo seria não se imiscuir onde não são chamadas.

Preciso esclarecer, com relação a mim, que, mesmo nessa condição de clara e explícita adversidade, eu não me perdoaria se eu tivesse o mesmo entendimento desses conterrâneos, de simplesmente dá uma de Pilatos, mas meu coração pede que eu ame a minha terra natal, independentemente da aceitação ou não dos meus textos, porque é preciso que eu satisfaça primordialmente a mim mesmo, sentindo-me feliz em tentar ajudar, mesmo que as minhas opiniões não sejam entendidas na mesma maneira como eu as compreendo, porque quando muito posso transmitir algo que imagino de bom alvitre, evidentemente sob a minha ótica.  

           Brasília, em 30 de outubro de 2020

Incompetência administrativa

 

O presidente da República decretou que, verbis: "Fica qualificada, no âmbito do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), a política de fomento ao setor de atenção primária à saúde, para fins de elaboração de estudos de alternativas de parcerias com a iniciativa privada para a construção, a modernização e a operação de Unidades Básicas de Saúde dos Estados, Distrito Federal e municípios".

          Após repercussão bastante negativa, o presidente do país resolveu revogar o decreto a que se refere a medida, à vista dos temores causados quanto à possibilidade de privatização dos serviços prestados pelas citadas unidades básicas, objeto de enorme abalo no setor da saúde pública primária, com gigantesco reflexo no atendimento à população mais carente.

O presidente ressaltou que em nenhum momento cogitou privatizar o SUS, uma vez que "O espírito do Decreto 10.530, já revogado, visava o término dessas obras (em unidades de saúde), bem como permitir aos usuários buscar a rede privada com despesas pagas pela União", esclarecimentos estes que não constavam do documento revogado.

Como é sabido, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) são a porta de entrada do SUS (Sistema Único de Saúde), cuja gratuidade à população é prevista no artigo 196 da Constituição Federal, que estabelece: "A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação".

A secretária especial de PPI, na tentativa de acalmar os ânimos mais exaltados, afirmou que as parcerias eventualmente derivadas do decreto “manteriam esse sistema público e gratuito para 100% da população. (...) O que tem é uma vontade muito grande de usar as melhores práticas de atração de investimentos privados para prestar serviços melhores".

O presidente do Conselho Nacional de Saúde (ligado ao Ministério da Saúde) disse que se trata de "arbitrariedade com a intenção de privatizar as unidades básicas de saúde".

Alguns deputados federais já tinham preparado projetos de Decreto Legislativo, na tentativa de suspender os efeitos do questionado texto, sendo que um deles argumentou que "a gestão privada na saúde transforma o que é um direito em um privilégio para poucos, aqueles que podem pagar".

Por seu turno, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) afirmou que o decreto deixava "sérias dúvidas quanto a seus reais propósitos. Preparado sem debate, o texto mistura aspectos distintos, como construção, modernização e operação das UBS. Por força de lei, decisões relativas à gestão do SUS não são tomadas unilateralmente. Elas devem ser fruto de consenso entre os níveis federal, estadual e municipal, sob pena de absoluta nulidade. (...) O decreto apresentado não trata de um modelo de governança, mas é uma imposição de um modelo de negócio".

Ao meu sentir, o decreto presidencial demonstra que o governo concluiu que é completamente incompetente para administrar a saúde pública no seu conjunto, desafio este que ele entendeu de bom alvitre correr o risco de entregá-la, de maneira impensada e irresponsável, à iniciativa privada, na esperança de que seja possível a melhora da prestação dos serviços pertinentes à população.

Ao conceder a administração da saúde à iniciativa privada, o governo transfere a sua responsabilidade constitucional para a iniciativa privada, dando a entender que não pode ser responsabilizado pelas possíveis precariedades, embora os recursos para a saúde pública vão continuar normalmente, desta feita, sem a gestão direta do governo.

A tentativa desesperada e frustrada de privatização de parte da obrigação da saúde pública, além de ser inconstitucional, permite que o interesse do cidadão fique à mercê da iniciativa privada, que vai dar prioridade às unidades potencialmente lucrativas, em total abandono às localidades que somente dão prejuízos, podendo, por certo, prejudicar grande parcela da população mais carente.

O decreto presidencial deixou bem evidente que a sua preocupação era viabilizar o simples descarte de setor da saúde que é fundamental para a população carente, porque ele lida com os atendimentos primários e de grande importância para os primeiros atendimentos, sem nenhuma preocupação quanto aos cuidadosos em proteger o interesse do cidadão usuário do serviço, ante a ausência de definições claras sobre as atribuições dos entes privados, como forma de se garantir não somente a gratuidade dos serviços, mas também os cuidados dispensados ao cidadão, em termos dos serviços de saúde de qualidade.

O governo mostrou seu total desgaste com a gestão da saúde pública, quando tenta se livrar dela, sob possível intenção de redução de custo, quando a questão não é mesmo se gastar menos, mas sim se gastar melhor e com a necessária efetividade, por meio de melhores controle e fiscalização sobre os trabalhos realmente executados, porque é notório que o desperdício de dinheiro público nesse setor deve ser verdadeira farra por parte dos aproveitadores, por causa da ineficiência e da precariedade do controle por parte do governo.

Ao lançar, ao que tudo indica, de maneira intempestiva e precipitada, o desejo de privação das Unidades Básicas de Saúde, o governo demonstra que a sua intenção é se livrar de serviços cercados de muitas dificuldades de gestão, com tendência a se acumular com o passar do tempo, exatamente diante da falta de aperfeiçoamentos e de modernidades do setor, fato que é visível.

Fato este que tem, necessariamente, tendência para aumento dos inevitáveis custos e desperdícios naturais, caso nada for feito para a eliminação dessas questões primordiais da saúde básica, porque não se trata de querer emburrar os gargalos para serem resolvidos por meio das Parcerias Público Privada, mas sim, repita-se, de se resolver os obstáculos que impedem o bom funcionamento do sistema, no seu total, de modo que o acesso aos serviços de saúde pública seja o mais eficientemente possível, inclusive com ênfase à prevenção, tanto na doença como na oferta de assistência de boa qualidade, na rede de suporte ao paciente, porque não é garantia que somente a adoção daquelas parcerias, pelo fato em si, vai ser garantia da melhoria do atendimento da prestação da saúde pública, quando o sistema carece da excelência da sua gestão.

Enfim, o governo, com o mínimo de competência e responsabilidade, já teria tido a iniciativa, de forma prioritária, não de descartar a sua incumbência constitucional de cuidar da saúde pública, da melhor maneira possível, mas sim de se preocupar em torná-la a mais eficiente, em termos de funcionamento, bastando para tanto, promover completa reformulação do Sistema Único de Saúde, inclusive das Unidades Básicas de Saúde, de modo a se perseguir a tão desejada eficiência nas políticas pertinentes.

Brasília, em 29 de outubro de 2020

Apelo à civilidade democrática

 

Anteontem, a candidata ao cargo de prefeita de Uiraúna, Paraíba, Leninha Romão declarou, segundo consta de entrevista publicada no prestigiado portal Cofemac, dessa cidade, que o candidato Segundo Santiago, seu opositor, teria indo à casa dela, em outubro do ano passado, e confessado, ipsis litteris: "na presença de outras cinco pessoas, que iria 'colocar Dr. Bosco na cadeia, cassar os diretos dele como médico e fechar a Clínica Padre Costa'", mas não foi declinado o motivo ensejador de tão contundente pretensão.

Ontem, o candidato ao mesmo cargo, Segundo Santiago, em entrevista publicada no citado portal, disse que jamais fez declaração nesse sentido, i.e., ele negou que tivesse feito essas seríssimas e comprometedoras ameaças.

A par de repelir as afirmações de Leninha, na mesma entrevista o candidato Segundo Santiago a acusou das práticas de “sonegação fiscal” e "empreendedora predatória", em razão, em especial, de ela ter sido condenada por sonegação de impostos.

Estas alegações também são gravíssimas, porém no âmbito comercial, onde elas são perfeitamente passíveis de acontecer com qualquer empreendedor, por motivação de falha de controle constatada por órgãos de fiscalização oficial e devidamente saneada pelos meios próprios e convenientes, o que significa dizer que a sonegação pode acontecer involuntariamente com qualquer comerciante, que, depois de reconhecido o erro e quitado o débito fiscal pertinente, fica sanada a notificação pertinente.

Agora, é preciso que fique registrado que essa forma de acusação jamais poderia ser objeto de discussão em campanha eleitoral com o mínimo de seriedade, porque o seu cerne não diz respeito ao processo propriamente dito, mas somente demonstra a falta de assunto importante para se debater nesse período de campanha.

Em princípio, o citado período é reservado para os candidatos apresentarem as suas propostas de governo e cuidarem do debate sobre elas, especificamente acerca dos assuntos pertinentes aos interesses do município e do seu povo, diante das graves questões que sequer foram tangenciadas até o momento.

Ao que tudo indica, os candidatos estão ainda tratando, salvo melhor juízo, de temas relacionados com perfumarias e embelezamentos de praças, ruas e açougue, que são obras bastantes diferentes da grandeza de saneamento básico, medidas capazes de se assegurar a perenidade do abastecimento de água na cidade e de tantas outras questões importantes capazes de atrair a atenção e a participação dos eleitores para o centro das discussões, com o aproveitamento desse tão importante espaço reservado para o levantamento e o debate de temas sérios e relevantes, se existentes.       

A bem da verdade, o momento ideal para a revelação da conversa nada agradável, que teria acontecido na casa da Leninha, segundo dito por ela, teria sido naquela data, em outubro do ano passado ou mesmo próximo do fato em si, porque não ficou nada bem, salvo os motivos para tanto, que ela viesse a público somente agora, no calor da campanha eleitoral, onde deveriam ser discutidos tão somente os temas de importância para a cidade e o povo, pertinentes aos projetos a serem executados pelo candidato vitorioso.

Não obstante, já que esse assunto bastante polêmico veio a público, em que a candidata fez grave acusação ao adversário, possivelmente por motivos óbvios, e que o acusado disse que se trata de pura inverdade, é preciso sim que os fatos sejam devidamente esclarecidos para os eleitores, que, por certo, estão ávidos pelo conhecimento da verdade.

  Convém que Leninha agora comprove a sua queixa, para o fim de se confirmar que ela não é mentirosa e não tem interesse, nem mesmo político, para inventar fato gravíssimo como esse, sem ter condições de provar, quanto mais que agora não tem como se desculpar sobre possível equívoco, porque os eleitores precisam saber sobre a verdade, verdadeira, na certeza de votar conscientemente no candidato que tem palavra e diz a verdade, acerca dessa questão.

Além do que, depois de o leite derramado, como se diz no popular, a única saída agora é passar tudo a pratos limpos e encerrar esse triste episódio - porque ele jamais deveria ter vindo à lume, por não fazer parte do processo eleitoral - o mais rapidamente possível, mas sem antes dos devidos e imprescindíveis esclarecimentos sobre a matéria de que se trata, por questão da necessária prestação e contas aos eleitores, que não merecem pôr nas urnas história tão escabrosa, que exige sim desfecho, o quanto antes.

O certo é que a verdade é sempre muito dolorosa, principalmente nas circunstâncias do debate eleitoral, onde não pode ficar qualquer dúvida inerente à retidão dos princípios de civilidade e cidadania.

Faço apelo para que esse lamentável episódio seja devido e urgentemente saneado, para o engrandecimento da política de Uiraúna, que já bem merece ser tratada com bastante amadurecimento, em termos de respeito aos princípios da civilidade e da democracia.

Brasília, em 30 de outubro de 2020