sábado, 7 de novembro de 2020

O prêmio da derrota?

 

A gigantesca disputa entre grandes políticos pela Casa Branca evidencia polarização e forte divisão da sociedade norte-americana, com fraturas expostas que vão demorar a cicatrização, conforme mostram os fatos revelados depois da abertura das urnas, no país de tio Sam.

À toda evidência, os resultados parciais das apurações mostram que a principal residência dos Estados Unidos será ocupada por novo inquilino, que deverá imprimir novo modelo de governo com ares de moderação mais apropriado ao estilo da nação acostumada ao equilíbrio e à racionalidade.

As urnas mostraram, sem sombra de dúvida, que os norte-americanos reprovaram o projeto ultradireitista do governo republicano, que teve desempenho pouco convincente para os padrões da principal potência mundial, em termos econômicos e sociais.

O presidente republicano se imaginava imbatível, diante dos bons índices de crescimento econômico, à vista da queda da taxa de desemprego, mas os resultados não chegaram a impressionar, porque eles não conseguiram superar os indicadores apresentados no governo do seu antecessor.

O balanço socioeconômico mostra que o país mais rico do mundo abriga mais de 40 milhões de pessoas situadas abaixo da linha da pobreza, consistente, na maioria, de população negra e latina, exatamente por decorrência de políticas sociais incompatíveis com as carências dessa faixa populacional.

O atual governo norte-americano não se preocupou em priorizar as políticas sociais, de modo a tentar erradicar a tragédia social que se abate sobre a pobreza daquele país, tendo mantido os programas referentes à alimentação e ao seguro-desemprego, evidentemente nos mesmos níveis do governo anterior.

A pandemia do novo coronavírus praticamente mereceu tratamento de ironia e negligência pela insensibilidade do presidente, diante da gravidade do problema de saúde pública, quando ele se insurgiu contra as orientações da Organização Mundial da Saúde, fato que colocou o país no topo mundial da quantidade de infectados e óbitos pela Covid-19, cujas ocorrências continuam em ritmo preocupante, causando enorme estragos na população.

Outra chaga social que passou ao largo pela visão presidente foi o racismo institucionalizado, que contou com o estilo antipacificador do magnata, quando ele foi incentivador do conflito étnico-racial, além de demonstrar rejeição aos afro-americanos, à vista do seu evidente comportamento à frente da execução de um negro por policiais brancos de Minneapolis.

Também ficou evidente o descaso do presidente com a tendência mundial, em termos da economia sustentável e da eficiência dos organismos multilaterais, talvez por entender que a globalização seja apenas corpo celeste com gravitação exclusivamente sobre o redor dos Estados Unidos, com total exclusão do resto do planeta, por não ter a menor importância no contexto mundial, a exemplo da retirada daquele país ao Acordo de Paris, que tem preocupação com a preservação do meio ambiente mundial.

O certo mesmo é que nunca os Estados Unidos tiveram governo com tantas prepotência, arrogância e mentalidade retrógrada como foi o do republicano, que conseguiu angariar fortes rejeições e antipatias, além de ter semeado inconciliáveis conflitos, por meio de mentiras e fake news, em ambiente completamente antagônico aos princípios civilizatórios e democráticos, que são indesejáveis pelos povos evoluídos daquela rica nação.

Enfim, o resultado das urnas mostra exatamente o que realmente é o governo republicano dos Estados Unidos, que tem por base as políticas excludentes e os privilégio ao capital, em contrariedade aos direitos humanos e ao desenvolvimento socioeconômico.

O presidente dos Estados Unidos da América, que acaba de ser abatido nas urnas, foi a síntese do descaso com as mudanças da sociedade e os valores sociais do século que prima pelo sentimento de evolução dos conhecimentos e do aprimoramento da sociedade, de modo a se materializar a certeza de que a ignorância a essas saudáveis condutas de valorização humana somente merece o “prêmio” da derrota.     

Brasília, em 7 de novembro de 2020  

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Estarrecimento?

 

O presidente dos Estados Unidos da América disse, mais uma vez sem apresentar provas, que está sendo roubado na apuração dos votos da eleição presidencial, precisamente em razão de sentir que a sua derrota nas urnas se encaminha a passos largos, conforme mostra a marcha das apurações dos votos.

Os motivos que levaram o presidente a denunciar as fraudes e corrupções no sistema eleitoral americano dizem respeito às quedas nas margens de votos que ele tinha na liderança de alguns estados, porém fruto normal das apurações próprias do sistema.

O presidente disse que "Nós estávamos ganhando em diversos estados com uma grande margem, mas os votos começaram magicamente a mudar", tendo afirmado que tomaria medidas judiciais contra as supostas irregularidades na eleição.

As acusações do presidente evidenciam tamanho desespero que se abateu sobre ele, tendo chegado ao ridículo, por que sem provas, de declarar que “Eles estão tentando roubar as eleições. Não vamos deixar que roubem essa eleição.”, diante da inexistência de fato capaz de sustentar tão precipitada e irresponsável afirmação, que somente seria possível se houvesse, ao menos, indício de algo nesse sentido.  

O presidente chegou ao absurdo de dizer que zonas eleitorais decisivas para o pleito deste ano, como as de Detroit, em Michigan, ou da Pensilvânia, são corruptas e fazem parte de um sistema corrupto, mas não há notícia alguma sobre irregularidade ocorrida nesses setores.

Como forma de não aceitação das insanas acusações do presidente, ao colocar em dúvida a lisura o sistema eleitoral, sem apresentar provas, grandes e importantes emissoras de televisão americanas, como ABC e NBC, tiraram o discurso dele do ar, no exato momento do pronunciamento, sob a alegação de que o mandatário estava mentindo e levando notícias falsas para os americanos e o mundo, algo muito estranho para a relevância da autoridade do nível de presidente dos Estados Unidos.

O certo é que, em diversos estados, os votos foram enviados pelos correios, na forma previamente normatizada, por força da pandemia do novo coronavírus, justamente para permitir maior segurança contra o contágio do Covid-19, os quais começaram a ser contados apenas depois dos votos depositados presencialmente, nos locais de votação, e muitos desses votos estão sendo contestados pelo presidente, sem o mínimo de consistência jurídica, porque tudo vem funcionando em conformidade com as regras estabelecidas pelas autoridades pertinentes.

O candidato republicano fez questão de separar os "votos legais" dos "votos ilegais", estes considerados por ele, para afirmar, com base nisso, que ele já teria sido vitorioso, mas ele não disse como se classificariam os votos ilegais, posto que eles foram enviados legalmente pelos correios.

Ele disse que, "Se contarem os votos legais, eu ganho facilmente, se contarem os votos ilegais, eles tentam mudar o resultado", a par de acusar a zona de Filadélfia como foco de corrupção, motivada somente pelo sistema de distanciamento dos representantes dos partidos das mesas de apuração, fato este que foi resolvido, sem que isso pudesse caracterizar forma de fraude nem corrupção nas apurações.

Causa espécie que o presidente somente questionou os votos das zonas onde vem perdendo, não tendo acusado os votos idênticos nos locais onde foi declarado vitorioso, o que pode demonstrar, de certa forma, esperteza política, ao se condenar somente os votos que lhe são desfavoráveis.

          Diante dos fatos dissonantes disseminados pelo presidente norte-americano, o candidato democrata reagiu pregando o respeito ao sistema democrático do seu país, tendo afirmado, em alusão ao seu concorrente, que “Ninguém vai tirar a democracia de nós. Nem agora nem nunca. A América foi longe demais, travou muitas batalhas e suportou muito para permitir que isso aconteça.”.  

          Até mesmo aliados ao presidente repelem o discurso dele, como é o caso de um republicano, que disse: “Com seus comentários, na Casa Branca, esta noite, o presidente desrespeitou todos os americanos que descobriram uma maneira de votar com segurança em meio a uma pandemia que tirou a vida de 235 mil vidas.”.

          Um senador declarou que “Nenhum republicano deve estar satisfeito com as declarações do presidente. Inaceitável.”.

Não há a menor dúvida de que a autoridade de presidente dos Estados Unidos, a maior potência mundial, precisa se pautar sob comportamento de equilíbrio, compostura e seriedade compatível com o relevante cargo que ocupa, de principal magistrado capaz de assegurar, ao contrário, credibilidade e segurança ao sistema eleitoral do seu país, como de fato e de direito vem ocorrendo, sem o surgimento de nenhum caso capaz de se confirmar as precipitadas denúncias sobre irregularidades no processo das apurações dos votos.

Não tem o menor cabimento que o presidente norte-americano se ache no direito de transmitir ao mundo situação que não reflete a realidade daquele país, a ponto de precisar inventar casos imaginados nas suas miragens, para tentar justificar seu possível insucesso nas urnas, em clara demonstração de mau perdedor, que deveria ter a dignidade de cair, mas sem protagonizar escândalo da pior magnitude, diante da transparência dos fatos que estão sendo transmitidos para o mundo, mostrando exatamente que nada há que possa confirmar as insanas suas declarações indiscutivelmente desequilibradas e espalhafatosas.

Enfim, não há sequer indícios de fraude nem irregularidade na eleição para a Casa Branca, mas há sim é a derrota à vista do presidente desesperado, que ficará sozinho com as suas denúncias inconsistentes, na certeza de que ninguém é insensível para embarcar nessa insustentável denúncia de vitória roubado do candidato democrata.

Pelo tanto de estrepolias e maquinações protagonizadas no comando da Casa Branca, bem distanciado dos princípios civilizatórios próprios dos grandes presidentes norte-americanos, à vista da contabilização por órgãos da imprensa, de mais de vinte mil mentiras atribuídas a ele, pode-se intuir que é chegado o momento ideal para que o verdadeiro empresário volte para o seu império particular, dando por cumprida a sua passagem pela vida pública, sem deixar a menor saudade para os verdadeiros homens públicos, que respeitam os princípios democráticos.   

Oxalá que o péssimo exemplo do mandatário norte-americano fique restrito àquele país e que o seu povo se conscientize de que as desesperadas e desconectadas palavras dele não passem de jus sperniand, diante de situação que parece se configurar contrária aos seus interesses políticos.

Brasília, em 6 de novembro de 2020  

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Grande tragédia humanitária

 

Os Estados Unidos da América, que são os líderes mundialmente da economia, demonstraram deficiências na administração da pandemia, em que pese a sua gigantesca rede de comunicação e tecnologia, pesquisa e estrutura biomédicas e científicas avançadas, conseguir liderar em infecções e mortalidade superiores aos países de modesta economia.

Não há dúvida de que isso evidencia que a potência mundial fracassou quanto às estratégias de combate contra a pandemia do novo coronavírus, conforme foi afirmado pelo importante New England Journal of Medicine (NEJM), que disse, em estreita síntese, em seu editorial intitulado “Morrendo em um Vácuo de Liderança: Eles assumiram uma crise e a transformaram numa tragédia.”.

Para patentear a força dessa afirmação, em 208 anos da bastante celebrada e respeitada publicação de medicina do mundo, o referido editorial foi apenas o 4º assinado por todos os editores, no total de 34, cujo conteúdo tem o peso de duras críticas, pela primeira vez, ao governo norte-americano.

O aludido editorial disse, obviamente em alusão ao governo norte-americano, que “O governo federal abandonou vastamente o controle da doença aos Estados. Os governadores variaram em suas respostas, não tanto em razão de seus partidos, mas de sua competência. Mas seja qual for sua competência, os governadores não têm as ferramentas que Washington controla. Ao invés de utilizar essas ferramentas, o governo federal as minou.”.

A verdade é que os EUA, com notório e avantajado poderio da infraestrutura biomédica e industrial, fracassaram no combate à pandemia em causa, à vista das evidências, quanto ao provimento de instrumentos capazes de proteger, de maneira segura, a população e as pessoas à frente do tratamento dos infetados, deixando, em especial, de promover testes em massa, a exemplo do que fizeram alguns países com maior nível de prevenção, tendo, com isso, conseguido evitar maiores danos à população.

No país onde surgiu o vírus, a China, por exemplo, foram adotadas, em adequado tempo, consistentes medidas de isolamento social, como forma de contenção do surto, no seu nascedouro, tendo conseguido taxa de mortalidade, pelo Covid-19, de 3 pessoas para cada milhão, enquanto, nos EUA, essa taxa ficou na metade, ou seja, em 3 pessoas por 500 mil.  

À exceção às referências aos recursos financeiros e tecnológicos, o que são naturais, os termos do supracitado editorial poderiam perfeitamente ser aplicáveis à situação do Brasil, ante à similitude de exatos diagnósticos protocolados em ambos os países.

Nos dois países, a adoção das medidas de isolamento aconteceu tardiamente, tanto em inconsistência como pela deficiência de fiscalização, sendo observado que muitas pessoas ainda preferem não usar máscaras, conquanto que há lideranças que alardeiam que elas são meios de controle político e ineficazes para reduzir o contágio do vírus.

O grau de desperdícios da eficiência no combate à pandemia diz até mesmo no emprego de pessoas despreparadas para o enfrentamento do mal, a exemplo do próprio ministro da Saúde brasileiro, que confessou, até ingenuamente, que até antes de ingressar no ministério: “não sabia nem o que era o Sistema Único de Saúde (SUS)”.

Isso bem demonstra, com muita precisão, a maneira atabalhoada como o governo brasileiro resolveu tratar da pandemia do novo coronavírus, cujo ministro tem conhecimento sobre saúde pública tanto quanto o presidente do país disse que não entende de economia e, de resto, muito pouco.  

Nos Estados Unidos e no Brasil, as principais instituições que tratam diretamente de saúde pública, como o National Institute of Health ou a Food and Drug Administration e o Sistema Único de Saúde – SUS, foram excluídas de decisões cruciais e importantes, em desprezo às suas experiências e informações acumuladas, ficando muito evidente que isso foi prejudicial ao combate à pandemia..

Diante do clamoroso quadro de contaminados e milhares de mortes, há sim como avaliar que se trata da maior crise da saúde pública brasileira, de todos os tempos, onde resultaram importantes lições de que as lideranças políticas conseguiram atrair para si o foco dos fatos pertinentes ao combate à crise, tendo imprimido nos seus anais a perigosa e destrutiva marca da incompetência e da irresponsabilidade, notadamente por força de sentimentos pessoais, com desprezo às práxis da ciência e da tecnologia, que deveriam, sobretudo, em situações emergenciais e cruciais, como nesse caso especial da pandemia do novo coronavírus, ser mais cautelosos, competentes e diligentes quanto aos seus atos e decisões.

Como forma de honrar a memória de milhares de mortos, onde muitos dos quais poderiam estar vivos, conviria que o desperdício de vidas, em especial, tivesse como motivação a imperiosa necessidade de consequências legais, por meio de apurações que pudessem aquilatar o grau da responsabilidade das lideranças, dos homens públicos que tenham contribuído, direta ou indiretamente, para essa alarmante tragédia da humanidade, eis que as lições da pandemia são muito claras, em que ficaram impregnados em atos a truculência contra os princípios da racionalidade e do bom senso, diante da ausência de medidas prudenciais que poderiam minimizar o desastre de muitas mortes.

          Brasília, em 5 de novembro de 2020

A revitalização da democracia?

 

O sistema norte-americano para a escolha do presidente da República é singular, sob a adoção do chamado colégio eleitoral, em que cada estado ganha um peso nesse critério eleitoral, de acordo com o tamanho da sua população.

Na eleição de 2016, por exemplo, a candidata democrata teve mais votos, acima de três milhões, mas o eleito foi o atual presidente, exatamente porque ele fez mais votos no colégio eleitoral, que é formado para o eleger, em votação apenas pro forma, posto que o vitorioso é aquele que fizer mais delegados nesse colegiado.

Nesse sistema visivelmente anacrônico, por se permitir          que a vontade popular seja ignorada, não é novidade que o candidato menos votado nas urnas venha a se eleger, exatamente por ele ter conseguido fazer mais votos no colégio eleitoral.

Naquele país, o colégio eleitoral totaliza 538 votos e o candidato a presidente precisa conquistar a maioria dos votos dos delegados, que é a metade dessa quantidade mais um, no somatório de 270 delegados.

Ou seja, o sistema é formatado para que os eleitores norte-americanos votem, na verdade, para a escolha dos delegados do partido, que, depois, vão eleger o presidente do seu partido, no caso da formação da maioria dos delegados.

O colégio eleitoral é formado proporcionalmente à quantidade de habitantes, onde há estado com 55 delegados e outros com 3, 6, 10 e assim por diante, conforme a população.

Como a Califórnia, por exemplo, é o estado mais populoso do país, com quase 40 milhões de habitantes, ela está dividida em 53 distritos eleitorais e termina se tornando grande força para a eleição do presidente.

Já o estado do Kansas, que é pequeno, com menos de 3 milhões de habitantes, tem apenas quatro distritos eleitorais, ou seja, esse estado oferece 4 delegados para a eleição do presidente.

Em cada distrito do estado corresponde a um delegado, ao qual se acrescenta mais um para cada senador que possui no Congresso, no total de dois, caso em que, na Califórnia, o total de delegados é de 55 e, no Kansas, de seis delegados, fato que evidencia a clara influência de cada estado, exatamente pela quantidade de votos no colégio eleitoral.

O sistema prevalente do colégio eleitoral existe justamente para que estados mais populosos tenham peso maior na decisão e, ao mesmo tempo, obrigando que os candidatos intensifiquem esforços tanto mais para ter melhor desempenho nos estados como Califórnia, Flórida e Texas, por exemplo, que, no conjunto, somam 133 delegados, que é quase 25% do total dos delegados e quase a metade para a eleição de presidente, no total de 270.

À exceção apenas dos estados de Maine e Nebraska, nos demais estados, é adotado o sistema denominado de  winner-take-all, em que o ganhador leva tudo, no caso onde o candidato que conseguir o maior número de delegados fica com todos, ou seja, se alguém conquistar 28 ou mais dos delegados da Califórnia, por exemplo, significa que ele contabiliza o total dos 55 delegados.

Via de regra, existem estados que são tradicionalmente republicanos, enquanto há outros onde os democratas ganham praticamente sempre, a briga se volta mesmo para os demais estados conhecidos como swing states, onde não há tanta fidelidade e os resultados variam de acordo com cada eleição.

Nessa sistemática, se incluem Carolina do Norte, Ohio, Pensilvânia e mesmo a Flórida, que passam a ser decisivos, no final da contagem dos votos.

Ao final, com o somatório dos 50 estados dos Estados Unidos da América (mais o distrito de Columbia), existem 538 delegados em disputa, e se torna presidente o candidato que assegurar o voto de pelo menos 270 deles.

Esse sistema de votação já bastante complexo, mas, desta vez, ele se tornou ainda mais, diante dos contornos da imprevisibilidade da pandemia do novo coronavírus, em que foi permitida a votação pelos correios.

Com a pandemia ainda presente nos Estados Unidos, assim como em boa parte do mundo, o tradicional sistema de votação do país precisou ser reformulado, para que os norte-americanos pudessem depositar suas cédulas pelos correios.

Parece inimaginável que, em plena era da inteligência artificial, a economia mais poderosa do mundo ainda recorra ao antigo sistema de envio, mas o processo eleitoral norte-americano é considerado um dos mais democráticos do mundo.

Na verdade, esse fato suscitou questionamentos, em especial do atual presidente, que não se conforma com essa ideia, por entender que ele pode beneficiar seu adversário, fato este que não há a menor procedência, por se tratar de decisão dentro das regras democráticas, válidas para ambos os candidatos, apenas adaptadas às circunstâncias.

Como o país da América do Norte possui forte influência nas decisões e rumos internacionais por conta da sua força econômica, neste período, as atenções ficam completamente voltadas para o pleito norte-americano.

Finalmente, importa se destacar que, nos EUA, não existe tribunal eleitoral, motivando que cada estado norte-americano tenha a incumbência e a liberdade para definir, previamente, as regras eleitorais, que podem ser diferentes das normas do último pleito de 2016 e até mesmo dos demais estados, conforme a conveniência deles.

Embora se diga que os Estados Unidos seja modelo de democracia, nesse ponto, o sistema eleitoral não parece ser o mais justo que se poderia imaginar, em termos democráticos, quando este tem por princípio a vontade popular, que não tem aderência nesse formato esdrúxulo e retrógrado, quando, nem sempre, a maioria elege o presidente, exatamente por força mais indireta, em que se vota para a formação de colegiado eleitoral e não diretamente no candidato.

Parece evidente que esse sistema complexo e pouco compatível com a realidade democrática, que é a materialização da vontade popular não se completa totalmente nele, diante dessa discrepância, atende plenamente aos interesses dos norte-americanos, por o aceitarem normal e continuamente.

A esperança é a de que o futuro presidente norte-americano, não importando se democrata ou republicano, tenha a sensibilidade de trabalhar tanto para o engrandecimento dos Estados Unidos da América como para a felicidade do mundo, diante da dependência econômica daquela que é, sem a menor dúvida, a maior potência, que consegue transmitir estabilidade e segurança universais quando seu governo demonstre serenidade e competência no comando daquela nação.

Brasília, em 5 de novembro de 2020  

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

A explicação do Vaticano

 

O Vaticano confirmou que o papa se posicionou favoravelmente à união civil entre pessoas do mesmo sexo do ponto de vista legal.

Não obstante, a Santa Sé esclarece que as declarações do papa foram tiradas de contexto e não mudam a posição da Igreja Católica, que, de maneira doutrinária, “considera as relações homossexuais como pecado e não reconhece o casamento homoafetivo.”.

A propósito, a declaração do pontífice ganhou destaque, com manchetes de primeira página da imprensa mundial, quando da estreia do documentário “Francesco”, que estreou no festival de Roma, realizado no mês passado, tendo por base comentário em que ele teria dito que homossexuais têm o direito de estar em uma família e que as leis de união civil para essas pessoas são necessárias.

O papa disse também, no referido documentário, que "As pessoas homossexuais têm direito de estar em uma família. Elas são filhas de Deus e têm direito a uma família. Ninguém deverá ser descartado ou ser infeliz por isso. O que precisamos criar é uma lei de união civil. Dessa forma, eles são legalmente contemplados. Eu defendi isso.”.00:00/10:00

Entrementes, segundo esclarece o Vaticano, o documentário cortou trecho comentado pelo papa, onde ele expressou claramente oposição ao casamento homossexual, quando foi deixado evidenciado que a opinião dele se referia às leis de união civil, que alguns países promulgaram para regular benefícios, a exemplo de plano de saúde.

Essa declaração foi divulgada em nota da Santa Sé aos núncios apostólicos, que funcionam como embaixadores do Vaticano, nos países que mantêm relações diplomáticas com ele.

De acordo com o Vaticano, foi retirada do texto do papa, no documentário, a expressão, verbis: “falar em casamento entre pessoas do mesmo sexo é algo incongruente.”.

Por fim, o Vaticano explica que "Há mais de um ano, durante uma entrevista, o papa Francisco respondeu duas perguntas distintas em dois momentos diferentes que, no mencionado documentário, foram editadas e publicadas como uma só resposta, sem a devida contextualização, o que gerou confusão.”.

Na verdade, os esclarecimentos produzidos por órgão oficial da Santa Sé, e não pelo próprio papa, é que, em síntese, as declarações do santo pontífice estão bastantes distanciadas das doutrinas e dos dogmas da Igreja Católica, que não aceitam, em hipótese alguma, mudança nas suas orientações sobre esse espinhoso tema da homossexualidade, no seio da milenar e tradicional instituição religiosa, que prefere continuar enxergando pecado em ato que homens aceitam como natural, à luz da evolução da humanidade.

À luz do bom senso e da racionalidade, a sua santidade, o papa, tem todo direito de se manifestar sobre todos os assuntos que afetam a humanidade, mas conviria que os assuntos polêmicos fossem discutidos primeiramente no âmbito interno da instituição comandada por ele, quanto mais em se tratando que já existe doutrina firmada na igreja que esbarra frontalmente contra o pensamento dele, fato que somente contribui para suscitar grave choque entre não somente à cúpula, mas da expressiva maioria da Igreja Católica, o que parece ser natural, ante a existência de rígida norma tratando da matéria.

Uma coisa é o papa demonstrar sentimento de amor a uma causa que ele considera justa e até cristã, sob a ótica religiosa, e a outra é ele contrariar precisamente a doutrina prevalente da instituição dirigida por ele, o que evidencia, de forma cristalina, o que mostra clara quebra do princípio da unicidade de comando e enfraquece substancialmente a sua autoridade como líder, que precisa ser o primeiro membro a acatar e respeitar as normas existentes na sua casa.

Obviamente que não se trata de a sua atitude vir a ser classificada como desastrosa, mas a posição papal nessa delicada questão tem sim o condão de abalar as estruturas da Igreja Católica, tendo em conta que o ideal teria sido que o mesmo tema fosse primeiramente discutido, debatido e aplainado no seio da instituição comandada por ele, para que, somente depois disso e ainda se conveniente para os interesses da instituição, ser apresentado o seu resultado além de seus muros, ante a imperiosa necessidade do respeito à sensibilidade de muitos religiosos que não veem com bons olhos o direito à felicidade dos homossexuais, da mesma forma como o fez o papa.

Há esperança de que seja possível a Igreja Católica evoluir, se reciclar e se modernizar, no bom sentido, ao ponto de ser capaz de puder alcançar a pacificação interna quanto ao entendimento segundo o qual todo filho de Deus possa ser feliz por meio do usufruto do mesmo sentimento de todas as pessoas, quanto à preferência, aos desejos, às vocações, à ideologia e à decisão sobre as suas opções de vida, com o alcance de plenas liberdades, tudo sob as visões e bênçãos celestiais, porque todo homem é igual um ao outro, apenas diferenciando-se no pensamento de agir e viver, sendo absolutamente impossível o julgamento pelo próprio homem das virtudes e dos erros do seu semelhante.   

Brasília, em 4 de novembro de 2020  

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Discurso insatisfatório?


O presidente da República teve a primazia de abrir os trabalhos da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e o fez agora com a marca pessoal de também criar discordância sobre os principais temas abordados por ele, com destaque para a gigantesca crise decorrente dos incêndios no Pantanal e na Amazônia.

Em nota, o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) criticou duramente o presidente do país, em razão do conteúdo de seu discurso, tendo afirmado que ele mentiu e contribuiu para que o Brasil "caminhe para se tornar um pária internacional. Sem qualquer compromisso com a verdade, o presidente afirmou que seu governo pagou um auxílio emergencial no valor de mil dólares para 65 milhões de brasileiros carentes, durante a pandemia. O auxílio foi de 600 reais".

Em outro trecho da nota, a ABI disse que "O presidente responsabilizou índios e caboclos pelos incêndios na Amazônia e no Pantanal, que alcançam níveis nunca antes vistos no País. Todas as investigações, inclusive de órgãos oficiais, indicam que fazendeiros estão na origem das queimadas".

A ABI ressalta que "O presidente transferiu a responsabilidade para governadores e prefeitos pelos quase 140 mil mortos vítimas do coronavírus. Todo o país é testemunha de sua leviandade, ao classificar a pandemia de 'gripezinha' e ir na contramão dos procedimentos defendidos pelas autoridades de saúde".

A Associação Brasileira de Imprensa afirma, em conclusão, que "A ABI repudia esse comportamento que vem se tornando recorrente e conclama o povo brasileiro a não aceitar o verdadeiro retrocesso civilizatório".

Diante do comportamento sistemático do presidente brasileiro, que tem sido reiteradamente contestado por entidades de classe e especialistas sobre importantes matérias em discussão, tem-se a ideia de que ele se alimenta dessa forma esquisita de suscitar polêmica absolutamente dispensável, porque as suas posições polêmicas não contribuem em nada para a elevação do seu governo.

Ao contrário, sempre que o presidente tenta esclarecer ou justificar questões relevantes as celeumas afloram ainda mais, porque nem sempre ele converge com a realidade dos fatos, a exemplo dos incêndios, em que o mundo acompanha com estarrecimento a dizimação das florestas, mas o governo apenas põem culpa, com ou sem razão em índios, caboclos, fazendeiros e outros incendiários, mas o que é essencial passa ao largo, que é investigar os incêndios criminosos e, se for o caso, punir com severidade os culpados, além de adotar medidas preventivas para se evitar novos, alarmantes e incontroláveis incêndios.

O governo com o mínimo de competência jamais iria à Assembleia Geral da ONU levando reclamações sobre estórias da Carochinha, dizendo que querem sabotar o seu governo, por meio de denúncias no exterior e outras falácias estritamente compatíveis com incompetências e má gestão.

O governo sério, competente e responsável se dirige ao mundo levando consigo fatos concretos sobre a sua administração, mostrando aos quatro cantos o resultado das apurações e investigações pertinentes e as medidas concretas adotadas por seu governo sobre os fatos denunciados e/ou questionados, de modo que não se permitam quaisquer dúvidas acerca da correção e da licitude da sua gestão.

Em uma República com o mínimo de seriedade e respeitabilidade, seria compreendido como da maior indignidade o seu mandatário ser classificado como mentiroso e “Sem qualquer compromisso com a verdade.”, porque isso significa completa desmoralização para quem exerce o principal cargo do país, de quem se exige o máximo de dignidade e conduta ilibada, o que vale dizer que deixar de ter compromisso com a verdade é o mesmo que desonrá-lo em definitivo.

Nesses casos dos incêndios das florestas pantaneira e amazônica e da pandemia do novo coronavírus, não há a menor dúvida de que a participação do presidente do país poderia ter melhor reflexo, caso ele tivesse agido com medidas tendentes à investigação dos fatos e responsabilização dos envolvidos e maior discrição comportamental na condução do combate ao contágio, fatos estes que contribuíram para desacreditá-lo como confiável na seriedade exigida em ambos os casos.

Enfim, não é nada elegante nem saudável que o presidente da República seja tratado como homem público mentiroso, diante de seus atos na lídima representação dos interesses do país, porque isso tem o condão de desacreditá-lo perante a opinião pública, que espera dele somente atos de grandeza e de dignificação do relevante cargo que ocupa.

              Brasília, em 3 de novembro de 2020 

O quê disse o papa, mesmo?

 

Em crônica, eu afirmei que o direito à felicidade é universal, sendo impossível negá-lo a quem quer que seja, não importando as razões de consciência, pensamento nem ideologia e nesse ponto o papa jamais poderia pensar diferente, diante do Evangelho de Jesus Cristo, que tem como princípio exatamente a busca da fraternidade e do amor entre os homens, sendo que a síntese disso se confunde com a própria felicidade.

Uma distinta e inteligente conterrânea disse, em mensagem, que “O que o Papa diz é que os pais não podem excluir um filho gay. E que eles devem ser amparados civilmente. Isso não significa que a Igreja e o Papa aprovem a união. Amar o pecador e desprezar o pecado. Isso em qualquer pecado.”.

Em resposta à aludida mensagem, eu digo que desde que eu venho escrevendo sobre a declaração do papa, acerca da questão envolvendo o homossexual, tem sido com base no pronunciamento dele, vazado no seguinte texto,  ipsis litteris: "As pessoas homossexuais têm o direito de estar em uma família, são filhos de Deus, possuem direito a uma família. Não se pode expulsar ninguém de uma família, nem tornar sua vida impossível por isso. O que temos que fazer é uma lei de convivência civil, eles têm direito a estarem legalmente protegidos. Eu defendi isso".

Eu e muita gente entendemos, com clareza, que o sumo pontífice está se referindo, de forma cristalina, em união homossexual, de pessoas do mesmo sexo, o “casal” de homem com homem ou mulher com mulher, por afirmar literalmente sobre a necessidade, ou seja, a aprovação  de "lei de convivência civil", precisamente para oficializar a convivência como duas pessoas normais, em reconhecimento da união como se casal fosse.

É preciso se atentar que a relação normal de filho homossexual com a família, no caso de pais e filhos, ou seja, irmãos, não precisa de lei de convivência civil, porque já basta tão somente a lei natural da compreensão, da amizade ou do amor próprio da família, como fazem normalmente as famílias que aceitam seu filho amado, independentemente da maneira como ele prefere viver, se relacionar no seio da sociedade, porque o amor filial sempre fala mais ato e está acima de tudo e ninguém vai expulsar de casa o filho ou a filha amado (a) da sua convivência.

Contrário senso, pensando bem, não faria o menor sentido o papa sugerir a criação de lei de convivência para a aceitação pacífica entre pai e filho/a, porque não seria a existência de norma legal que iria promover o entendimento familiar ou a conciliação, por depender apenas de superação de momento. É preciso que as pessoas compreendam que o exato entendimento sobre a declaração papal é no sentido de que precisa reconhecer e oficializar, na esfera civil, a convivência de aceitação entre pessoas do mesmo sexo.

O paradoxo reside exatamente no sentido de que, ao defender a união entre pessoas homossexuais, o papa simplesmente fê-la somente em relação à esfera civil, tendo ignorando e fechado os olhos, ou seja, feito vista grossa, para a doutrina existente na Igreja Católica, no sentido de que “o respeito pelas pessoas homossexuais não pode levar de forma alguma à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais".

Em análise, mais fria possível, sobre esse relevante tema explorado pelo papa, voluntária e pessoalmente, pode-se se intuir, à luz do bom senso e da racionalidade, que, na qualidade de dirigente máximo da santa madre Igreja Católica, antes de opinar, da maneira explícita como o fez, o cardeal dos cardeais deveria cuidar de pacificar seu entendimento sobre a união homossexual no seio da igreja, para ter autoridade eclesial para sugerir medida na esfera civil, porque isso pode demonstrar nenhum interesse na bênção da igreja aos homossexuais que o desejem fazer parte das atividades religiosas por ela oficiadas.

Estranha-se quanto o mais o fato de o papa dizer que os homossexuais “são filhos de Deus, possuem direito a uma família.”, mas, ao mesmo tempo, ele se abstém de providenciar eles sejam igualmente reconhecidos como tais pela própria igreja.

Não há a menor dúvida de que a atitude do papa evidencia forma parcial de amor ao próximo, independentemente da orientação sexual, porque isso realmente não pode servir de pretexto para nenhuma forma de discriminação, nem mesmo dentro da Igreja Católica, porque, se fosse assim, haveria necessidade da aplicação da antiga lei do “Olho por olho, dente por dente”, em que a instituição não poderia aceitar o tanto de sacerdotes homossexuais, porque eles seriam vistos como eternos pecadores, à vista da doutrina que renega a existência de quem se diz aderir a essa orientação.  

Ante o exposto, para que o amor do papa à causa homossexual se materialize como verdadeiro, é preciso que a doutrina da Igreja Católica seja flexionada para acolher também as pessoas que seguem aquela orientação sexual, diante dos sagrados princípios de que as pessoas merecem respeito e todas as formas de amor valem a pena e precisam ser valorizadas, principalmente porque não há qualquer pretexto para justificar absurdas discriminações contra o ser humano.

Brasília, em 3 de novembro de 2020